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A Casa dos Espíritos (1993): As contradições do conservadorismo na América Latina


 Casa dos Espíritos, romance de estreia da escritora chilena Isabel Allende publicado em 1982, é uma saga familiar que acompanha quatro gerações da família Trueba ao longo de um século de transformações políticas e sociais na América Latina (com forte inspiração na história do Chile). A Casa dos Espíritos (1993) é um drama histórico e dirigido por Bille August. O filme é estrelado por Meryl Streep (Clara Trueba) e Jeremy Irons (Esteban Trueba), contando com um elenco grandioso que inclui Glenn Close, Winona Ryder e Antonio Banderas. A trama adapta o famoso livro homônimo de Isabel Allende com força e reflete sobre o passado contraditório do conservadorismo no Chile. 




Um romance de estreia da famosa escritora, que reflete mais do que romance a estrutura política e histórica da América Latina. Para resumir da maneira mais curta e direta, Estevan Trueba é um retrato conturbado do homem conservador da América Latina. 


A impressão de ler esse livro é realmente entender a intenção da autora. Aqui o romance realista fantástico de ao estilo latino se encontra com a interpretação sobre a "maldição da casa grande". Noto uma espécie de ironia na escritora, ela percebe que a camada dos políticos (conservadores e liberais) brigam, porém fazem parte do mesmo mundo e casam entre si. 

A impressão de ver o filme é de que os EUA hoje em dia não tem capacidade financeirs, emocional ou cognitiva para fazer uma adaptação literária desse porte. Tornando possível alguém tão progressista (quase angelical) como Clara (que é uma referência a ela ser muito branca e frágil) se casa com alguém oriundo do mito conservador do veni, vidi, vici e aos poucos vai se decepcionando com isso.

Aqui, já escrevemos sobre filmes do Chile, o No, um que fiz recente que era do Polansky sobre um país como o Chile. Também fizemos da adaptação da série da Netflix, adaptando a mesma história em três gerações. 

O filme faz uma escolha interessante e não retrata a vida de Clara e Estevan como tão ruim entre os dois. No livro, ela chega ate a perder gêmeos. São os gêmeos Esaú e Jacó de Machado que penso ao analisar a intenção da obra de Allende. A escritora é prima (não filha) do Allende que assumiu o Chile pouco antes do golpe militar. 


O filme mostra que as tentativas de "conter a história" de Trueba voltam para assombrar ele. Se ele foi cruel com uma moça do povoado e teve um filho com ela, esse filho volta em forma de alguém renegado que só teve algo do pai ao dizer que faria carreira militar, aí ele vira a figura do torturador, um projeto de país não assumido. Aí o irmão ilegítimo vira o torturador da filha de Trueba Blanca interpretada pela Winona Ryder. A garota mandada ao colégio interno namora do revolucionário índio (Antônio Bandeiras) que Trueba tentou várias vezes matar. 


É interessante o foco em Trueba, um retrado de crueldade e contradição, começa a história romântico e namorava Rosa, a irmã mais velha de Blanca. Quando ela morre, é anunciado por Clara (Mary Streep). Clara é a esperança metafísica de que uma moça das elites liberais, com ideologia progressista (uma professora) se apaixona e casa com Trueba e volta a falar apenas ao encontrar com ele. 


 Quando Clara morre,  a esperança de um "grande coração" que tudo sabe feminino, ao estilo santa ou bruxa ganha um carácter fantasmagórico, já que por ela prever o futuro, ela sempre soube o que aconteceria, mas mesmo assim casou com Estevan. 



Clara previa o futuro e levantava objetos com a mente. 


Eles tem uma filha, Blanca, que Trueba odiava, queria um filho homem, e comentava até do cabelo da filha como errado, da cor errada. O filho renegado com a mulher do povoado demonstra as raízes do racismo do patriarcado rural desses estilos de assentamentos. 


No momento que ele fica rico com garimpo, ele  compra fazenda, mas Clara não consegue por muito tempo manter o amor que tinha em relação ao seu esposo. Ele se torna político do partido conservador, apoia a intervenção dos militares e vem se arrepender disso.


 A metáfora política é linda e todos os pontos se encaixam na crítica, como uma mão irônica que ri das intenções do destino, o que começou com os abusos patronais se converteu em uma forma de país, de poder e de elites, onde Trueba era símbolo de uma máquina produtiva rural forte. O casamento de Clara e Estevan é a metáfora daquela união antiga, agrarista do socialismo agrário perdido. O homem da terra, dono de terra se convertia no abusivo legado de castigoa físicos e de repressão políticas. 


No fim, ao refletir como queo capitalismo pula gerações na América Latina, Trueba começa  a história romântico e trabalhador, apenas queria trabalhar por meritocracia e por isso ficou anos fora. Ao voltar encontrou sua amada morta. Depois disso, ele vira um outro homem, a semente do ódio que ele plantou volta em forma de política de estado em um regime de excessão depois. Por fim, Blanca não se casa e permanece fiel ao pai de Alba. Ela é torturada por ser mulher de um revolucionário, mostrando o limite do poder do conservador Trueba perante a sua própria família ser agora alvo de perseguição. 






Um filme adaptado com vários atores de Hollywood, com uma leitura profunda do texto, busca investir em uma estranha romantização da ideia de família. No fim, ele conta a filha que tentará ajudar ao homem que era pai da sua neta. 


Parece haver um arrependimento dele pelo tamanho da brutalidade que foi a tomada de poder no país latino. O fim do filme mostra essa brutalidade e enfatiza as contradições de classe e raça que formam países como o Chile, com alta influência estrangeira e certo isolamento telúrico e cultural.  






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