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Kiriku (1998): Uma análise da animação cult e seu esquecido game para o PS1, Game Boy e PC


Kirikou et la Sorcière é um longa-metragem de animação franco-belga de 1998 dirigido por Michel Ocelot. O diretor do filme, passou parte da infância na Guiné, onde conheceu a lenda de Kiriku, que na lenda africana, é um recém-nascido superdotado que sabe falar, andar e correr muito rápido. Analisaremos tanto o filme como o obscuro jogo PlayStation 1


Na lenda, Kiriku se incumbe de salvar a sua aldeia de Karabá, uma feiticeira terrível que deu fim a todos os guerreiros da aldeia, secou a sua fonte d'água e roubou todo o ouro das mulheres. Kiriku é tratado de forma ambígua pelas pessoas de sua aldeia, por ser um bebê, é desprezado pelos mais velhos quando tenta ajudá-los, porém, quando realiza atos heroicos, suas façanhas são muito comemoradas, embora logo em seguida voltem a desprezá-lo. Apenas a sua mãe lhe trata de acordo com sua inteligência.



A história se inicia de uma forma sui generis: ainda no ventre da sua mãe, Kiriku exige nascer; a sua mãe retruca que uma criança que pede para nascer pode nascer sozinha. Ele então nasce, toma banho e se interessa pela desgraça de sua aldeia: uma feiticeira chamada Karabá teria devorado o seu pai junto com quase todos os outros homens da vila, secado a fonte que abastecia os moradores e ameaçado mulheres e crianças.


Neste mesmo instante, o tio de Kiriku se dirige até aos domínios da feiticeira para exigir o fim das maldades. Kiriku corre até o tio e insiste em acompanhá-lo, mas o tio do Kiriku não permite a presença do sobrinho, ele decide usar sua astúcia e se esconde na copa de um chapéu para conseguir seguir viagem com ele. Disfarçado no chapéu, Kiriku consegue salvar o tio de uma morte certa.


Porém, quando a feiticeira percebe que foi enganada, exige todo o ouro das mulheres da aldeia. Kiriku mais uma vez vai até os domínios da feiticeira, agora desejando conversar com ela e saber porque ela é tão má. A bruxa tenta matá-lo por tal impertinência, ao que ele foge, mas ainda não se convence. Continua nesse intento até descobrir porque a bruxa é má.


Um dia, Kiriku arma um plano com a ajuda da mãe, para visitar o sábio da montanha, para saber mais sobre Karabá. Ocorre, contudo, que para chegar à montanha, seria preciso passar pela residência de Karabá, quando ela não deixava ninguém se aproximar de sua casa, e restringia o acesso à montanha, temendo que o seu segredo pudesse ser revelado pelo sábio.


Usando de artimanhas e após diversas peripécias, Kiriku consegue chegar até a montanha e ter conhecimento com o sábio, dos segredos de Karabá. Ela dizia que devorava os homens, mas na verdade transformava todas as vítimas em escravos mágicos de forma robótica para obedecer as suas ordens. Kiriku aprende também que os poderes de bruxa dela advêm de um espinho envenenado que se encontra enfiado em sua coluna vertebral.


No regresso a casa, Kiriku determina-se a arrancar o espinho das costas de Karabá e enfim consegue o feito, libertando-a da maldição e quebrando os feitiços que ela fizera.


Ao final do filme Kiriku casa-se com Karabá e vira homem adulto e ele Karabá vivem felizes para sempre. 


É uma animação muito bonita, profunda e interessante. Aborda aspectos tão profundos da antropologia, que ganha contornos históricos, uma vez que se preocupa tanto em delinear os personagens em sua humanidade, que questiona e conflita arquétipos que são não apenas de importância ancestral, mas também global. 


Apresenta uma forma de como ver e interpretar a narrativa ocidental do herói de uma perspectiva africana, ao mesmo tempo que representa o particular, o específico da lenda e das características culturais da África, sendo ao mesmo tempo uma representação regional da Guiné e um comentário sobre aquilo que há de supostamente universal entre os seres humanos.


Isso quer dizer que é interessante por fazer um comentário evidente sobre raça e valorização das culturas tradicionais africanas, mas não se limita a isso: leva ao ponto daquilo que é similar ou diferente entre as culturas. Tudo isso em um filme leve, que pode ser assistido por crianças, sem perder sua profundidade e reflexão. É um filme obrigatório para quem curte animação. 


A seguir eu analisarei o jogo que adapta o filme para o universo dos games.


Confira o jogo completo:


O Game 


Kirikou é um jogo de plataforma de 2001 desenvolvido pela Étranges Libellules para PlayStation, pela Planet Interactive para Game Boy Color e pela Krysalide para Microsoft Windows. O jogo foi publicado pela Wanadoo Edition.


Kirikou é um jogo de plataforma 3D em que a progressão se dá em um plano bidimensional com rolagem horizontal. O objetivo é superar os sete níveis, coletando gotas de água, evitando os fetiches e superando os obstáculos para chegar ao oitavo e último nível e enfrentar a bruxa Karabà.


O enredo do jogo é baseado nos eventos do filme. Uma feiticeira maligna chamada Karabá aterrorizou a vila do protagonista Kirikou e os arredores. Para garantir que seu plano de dominação sobre a região seja concretizado, ela transformou todos os homens da vila em fetiches. O tio de Kirikou, no entanto, conseguiu escapar da transformação causada pelo feitiço de Karaba e decidiu combatê-la sozinho. Sem que ele soubesse, porém, Kirikou decidiu seguir o tio e se juntar a ele para frustrar os planos de Karaba.


Eu zerei esse jogo em sua versão de PlayStation 1 e tenho algumas coisas para comentar. Primeiro, não espere um jogo muito elaborado. Ele adapta exatamente a trama do primeiro filme, usando inclusive cutscenes do filme, mas em formato FMV com a qualidade bem reduzida, ajudando a contar a trama entre as fases. 


Ao mesmo tempo, apesar de não muito inovador, não espere um jogo trash total. Ele tem um visual muito bem feito, designs e cenários em 3D muito bem feitos e fiéis a animação. 


Porém o principal detalhe que posso comentar do filme é que eu consegui zerar o jogo em apenas 40 minutos. Isso se dá pelo fato do jogo permitir que você apenas corra e ignore mais de 90% dos inimigos do jogo, correndo direto para o final. 


Geralmente, isso é um elemento considerado um defeito nos jogos, que o jogo deve conter elementos para impedir o jogador de apenas correr e ignorar os inimigos. Porém, para quem já viu o filme e prestou atenção pode perceber alguns detalhes que justificam essa como a estratégia mais lógica para o game: Primeiro, na mitologia do personagem é dito que Kiriku é rápido e corre como ninguém. Todos os inimigos do jogo respondem a Karabá. Porém, no final se revela que Karabá não era má, mas sim estava sobre um feitiço devido ao espinho na coluna. O filme ainda trás um detalhe: Karabá não devorava os homens da aldeia, ela os transformava nos vilões que você enfrenta ao longo da jornada. E sabendo que Karabá se tornará esposa de Kiriku, correr direto para o final se torna não uma forma de jogar, mas sim a forma mais fiel e lógica de finalizar o jogo.


Entretanto, o jogo também permite que você jogue tranquilamente, derrotando todos os inimigos e pegando todas as habilidades. E por essas múltiplas formas que jogo permite ser jogado que eu o considero um jogo interessante e recomendável, mesmo que sendo um jogo curto e limitado, mas que perante outras adaptações de filmes para os games, cumpre o seu papel. 


Uma coisa que pode ser destacada como ponto alto do jogo é a trilha sonora, que possui músicas e trilhas tão marcantes que chegam a ser melhores que as do filme.


É uma franquia muito interessante, que mesmo sendo dos anos 90 e início dos 2000, já pensava na necessidade de ter uma presença transmidiática de qualidade, onde tanto o filme como o jogo podem ser consumidos separadamente e ainda assim passar as principais ideias e sentidos da franquia. 


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