Fitzcarraldo (1982), dirigido pelo alemão Werner Herzog, acompanha os sonhos de cultura de Brian Sweeney Fitzgerald (Fitzcarraldo), um obstinado estrangeiro na Amazônia peruana que quer levar a ópera e o barco para a natureza. Um filme gravado na cidade de Manaus e no município de Tabatinga. Para financiar seu sonho megalomaníaco, ele precisa explorar uma área de seringais isolada e, para isso, tem o desafio épico de transportar um enorme navio através de uma região de montanhas pouco conhecida, com a ajuda dos indígenas locais.
Um filme único, preciso, artístico e que trata de grandes temas sociais e históricos, como valor cultural, gosto, coletividade, trabalho forçado ou ideia de missão em comum, o histórico dos pioneiros em debate na sua extensão e causalidade, o "lançado" podia ser sortido ou obstinado e forte, a lenda das "descobertas" são sempre ou um ou outro.
Esses dias, uma corte no Pará ordenou a restauração da cidade fantasma da Fordlândia (criada por John Ford), e depois abandonada. Então vemos como essa época era meio fantástica. Muitas produções abordam o início do século na área amazônica.
Da mesma forma, esse filme é sobre mais ou menos a mesma época, uma época do ciclo da borracho, onde seringais na amazônia viraram pneu dos mais novos carros, criando uma absurda elite local, e muitas vezes, estrangeira.
Essa ideia de fazer cultura de nação e povo pode ser visto como algo de hiatória alemã, querer levantar a cultura de um povo, e ópera apesar de ser algo do "bom gosto", é algo ainda do foro do popular na sua origem europeia, aqui ainda um pouco como uma ideia fora do lugar. Apesar do filme mostrar a loucura da possibilidade.
As músicas do filme são clássicas demais, "Ridi Pagliacci" (da ópera Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo), "O Paradiso" (da ópera L'Africaine, de Giacomo Meyerbeer)"Scene from 'Ernani'" (da ópera Ernani, de Giuseppe Verdi).
Ou seja, tentativa de coroar o processo de trocas culturais com cultura (kultur) é exatamente esse processo de fazer um filme sobre esse tema. Situaria Herzog, como um cineasta entre Fassbinder e Hector Babenco. Dá pra ver que ele entende muito sobre Amazônia, Peru e Brasil.
Herzog filmou na selva amazônica peruana, na região de Iquitos. Obcecado pela ópera e pelo cantor Enrico Caruso, ele arrisca tudo para construir um grandioso teatro de ópera no meio da selva. Depois de se inspirar vendo uma apresentação no Teatro Amazonas, em Manaus.
Ele carrega uma postura de bom analista histórico, em ótimas sacadas de diálogos que refletem sobre conquistas e colonizadores e demonstra como que a colonização envolvia a legitimação e o empréstimo de condições e estruturas para construir projetos que nem sempre eram culturais.
Há um diálogo como clássico literário Macunaína (também com Grande Otelo) ao ex funcionário da fábrica de gelo dizer que tinha sido os índios que o roubaram, quando fica óbvio que não era isso. O próprio Herzog comenta isso em seu romance "A conquista do inútil", como o projeto era cultural, parecia todo um esforço em vão.
Esse filme tem umas curiosidades ótimas, O navio foi realmente arrastado montanha acima. Não era miniatura nem efeito especial: Werner Herzog fez uma embarcação de cerca de 320 toneladas subir uma colina de verdade na Amazônia peruana. As roupas foram distribuídas por Herzog pra manter a classificação etária do filme.
Foi inspirado o personagem na figura real do peruano Carlos Fitzcarrald do século XIX, que realmente transportou um barco entre dois rios. Embora haja exagero no filme. O filme se visto como metáfora do projeto civilizatório pode lembrar o espírito americano na construção do Canal do Panamá.
Esse filme tem lendas que nem sabanos se é verdade, cai naquilo se mitologias do cinema em si. O protagonista original não era para ser o ator Klaus Kinski. O papel seria de Jason Robards, e Mick Jagger estava no elenco. Robards ficou gravemente doente com disenteria, e Jagger precisou sair por causa da turnê dos Rolling Stones.
A relação entre Herzog e Klaus Kinski era tão explosiva e reza a lenda que um líder indígena teria se oferecido matar Kinski para o diretor durante as filmagens. Herzog recusou porque precisava terminar o filme. Era absurda a relação dos dois, mas eles fizeram vários filmes juntos nessa combinação explosiva. Também sobre colonização e do mesmo ator e diretor é o clássico também Aguirré, A Cólera dos Deuses.
O documentário sobre os bastidores, Burden of Dreams, virou febre por contar todos esses detalhes e construir um clima de paridade entre o filme e a vida real.
Herzog dizia que o filme não era “sobre um homem louco”, mas sobre o poder absurdo dos sonhos humanos. Muitos críticos observam que o diretor acabou se tornando uma espécie de Fitzcarraldo real durante a filmagem. Ou talve seja lenda porque o filme dá uma sensação de filme histórico bem feito. Afinal, eles realmente construíram aquilo.
A obsessão do personagem por ópera é central: ele acredita que arte e beleza podem conquistar a selva. O uso das gravações de Enrico Caruso no meio do rio é uma das cenas mais marcantes do filme. Vencendo o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes de 1982 e hoje é considerado um dos maiores exemplos de “cinema de obsessão”.
Vários temas são debatidos no filme, mas o que eu quero apontar são umas curiosidades muito boas. Quem participa do filme como o primeiro amigo local da elite do protagonista é José Lewgoy que fez o governador populista em Terra em Transe.
Impressões de rever o filme, acabei assistindo uma versão de dublagem em espanhol :
Começa no meio de uma densa neblina, e aí eles mostram o luxuoso teatro Amazonas, fazendo parecer que de dentro da amazônia pudesse sair um ambiente extremamente europeu.
Com a prrsença da atriz Cláudia Cardinale e Klaus K. José Lewgo, e o cantor brasileiro Milton Nascimento. Começa uma encenação de uma ópera, gravada como se fosse a peça parte do filme.
É Milton que veta a entrada do teatro ao casal ao excêntrico ali. A peça é muito boa e mostra uma cena de violência e tapeçarias lindíssimas. A verdadeira consagração do bom gosto.
Ele fala que seu pai era holandês, mas o personagem real que inspirou, tinha um pai americano. Ele queria colocar seu dinheiro na construção de ferrovias. O cara comenta que Sara Bernard não sabia cantar. O senhor vende o teatro como um pedaço de Europa na selva e que a cidade pelos investimentos, era "a cidade mais rica do mundo". O senhor chega a contar que eram tão ricos ali, que a elite chegava a mandar roupas para lavar em Lisboa.
Eles são esse casal que chega nesse vila ribeirinha. É notável o quanto as roupas e costumes na amazônia respeitam uma lógica de produção de materiais muito historicamente bem feita pra retratar a época do ciclo da borracha por volta de 1920 mostrando todda aquela corrida por fazer cidades, ferrovias e estradas pars desbravar o interior. O nome do homem que inspirou a trama foi um barão da borracha , filho de americano chamado Carlos Fermín Fitzcarrald.
Ele diz que prefere focar seus negócios na fábrica de gelo. Mostra a prática de usar barco pra ir de uma área para a outra. Vale lembrar que nessa região, não havia nenhuma forma de integração rápida. Um homem local desdenhou de seu projeto dizendo que ali não havia necessidade de algo como gelo. Ele começa a ficar obsecado em querer construir seu teatro de ópera. Aí ele vai pra cadeia, porque quer cultura.
É muito engraçado isso dele por querer mais cultura ser tratado como louco. A sua namorada tem uma espécie de casa de garotas de luxo que ela gerencia .
O homem rico local joga dinheiro pro peixe comer. Em uma metáfora de que a elite jogava dinheiro fora. Aí ele coloca sua música.
Os caras explicam que ele é um pouco avariado das ideias e que por isso queria certas coisas demais. A sua amiga retira suas "amigas de luxo" da festa da elite em protesto por causa de Fitzcarrado, porque ele é considerado louco por persistir em um projeto de cunho cultural, uma espécie de sonho de uma noite de verão que ele tem. Um homem holandês se junta a sua equipe. Virando o capitão do barco. Depois contratam um cozinheiro atirador. Molly, sua namorada quer ir com ele mas ele não quer.
Ele nomeou o barco com o nome dela. Adicionando duas mulheres que eram assistentes de cozinha do homem. Eles partem no barco grande. Eles partem e vemosno eterno rio amazonas ao fundo com toda sua paisagem linda e árvorez frondosas que nascem no meio da floresta, árvore e pântano.
Até que eles chegam no primeiro obstáculo em terra e vemos o gênio do ator Grande Othello que fala que os nativos haviam roubado peças da fábrica, mas dá pra ver que é ele, na verdade.
Vemos o processo de produzir borracha feito por um homem indígena. Ele se encanta com os mapas e a ppssibilidade de desbravar um rio isolado no meio de outro rio. Aí ele aparece atirando uma jaguatirica pra longe.
O esquema de exploração clássico das capitanias heredirárias é explicado.Ele conversa com homens locais, das letras e descobre que há outras estórias de expedições que deram errado. Um dos caras do barco conta a lenda do deus branco que traria riquezas. Mais a frente, vemos uma tribo que tenta cortar o caminho deles.
Eles depois entram na floresta adentro para explorar. O homem loiro não quer desistir. Eles cortaram árvores, enfrentaram cobras venenosas. Um dos homens na expedição brinca que se der errado, podia virar uma exibição da tentativa.
A ideia maluca era passar um barco, nivelando o terreno, construindo uma rampa para passar o barco emtre os rios pelo caminho íngreme das montanhas.
Vale notar que apesar do planejamento do homem loiro, eram os nativos que faziam todo o trabalho e reflete-se o porquê disso. Fitz é oferecido bebida yuca fermentada feita de mandioca e saliva. Aqui ele passa a achar que está em uma missão civilizatória por ter o apoio incondicional dos nativos locais.
A metáfora faraônica de fazer um projeto impossível começa a cansar todos, o projeto ganha contornos cada vez mais messiânicos. Finalmente trazem a ópera para o meio do coração da floresta, extraindo o cenário que era do antigo teatro, para o meio do rio. Ele sente-se realizado finalmente e vê Molly na multidão lhe esperando.
Por fim, eles conseguem transportar o barco. Certa altura, o barco quase virou, por isso que Herzog mesmo conta que o barco ficou destruído depois do filme.









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