Mar Morto é um romance clássico de Jorge Amado, publicado em 1936. A obra se passa no cais de Salvador e narra a vida pulsante de pescadores, marinheiros e malandros, guiados pela rica mitologia de Iemanjá. O centro da narrativa é o jovem pescador é Guma e seu grande amor é Lívia com quem se casa. O livro retrata os costumes, ritos, crenças e religiões dos homens do mar em obra crítica com a estética do realismo socialista.
Mar Morto é um clássico do grande Jorge Amado, que já fizemos aqui com Dona Flor e Seus Dois Maridos e Tieta, dois livros já escritos um pouco depois. Em 2001, a Rede Globo fez a novela Porto dos Milagres como uma "livre adaptação" da obra Mar Morto. Uma novela que lembro da época de infância.
Eu já li várias vezes e sempre descubro algo novo. Jorge Amado é um autor memorável. Esse livro, Terra do Sem Fim, a biografia sobre o Luis Carlos Prestes (o cavalheiro da esperança). Amado é embaixador do informal e do popular, representa ler sem cobrança, português informal e até errado em vários momentos. Significa um mergulho real em vilas e comunidades de cultura e religião fechadas.
O livro apresenta, além de personagens femininas muito marcantes, temas como a Procissão de Bom Jesus dos Navegantes. Descreve também todos os ritos seguidos por essas mulheres, especialmente as oferendas feitas a Iemanjá e detalha como se interpreta se ela as aceitou ou não: se o mar engole o que é oferecido, significa que aceitou; se a oferenda fica boiando, significa que foi recusada.
O legal de Mar Morto é ver a pureza da representação, mesmo deser a primeira fase de juventude (quando tinha 24 anos) do autor clássico, vindo de um escritor do renome de Jorge Amado, que foi um verdadeiro embaixador da cultura brasileira que recebia todos em sua casa.
A tentativa de falar do populaar antes que o PCB (Partido Comunista) passar a impor dogmas na literatura, esse romantismo da estética do realismo socialista se perdeu demais por conta dessa mudança. Também com a mesma estética, podemos pensar no primeiro filme de Glauber Rocha, Barravento.
O livro é da fase regionalista/crítica sociak e é alinhado com o modernismo. Que é sobre o regiatro de um regionalismo romântico e pela denúncia social. Guma é o herói um pouco diferente de Ulisses (de Odisseia) pois sabe que seu destino e missão de vida é correr perigo junto ao mar, logo, sabe que não pode voltar. Assim como Lívia é condenada a esperar em agonia toda vez que ele parte.
Mas no universo de Mar Morto (1936), quando se fala em “terras do sem fim”, trata-se do reino mítico de Aiocá — o lugar para onde Iemanjá conduz os pescadores que o mar leva, além do horizonte, sem possibilidade de retorno ao mundo dos vivos.
Guma ouvia do velho Francisco a canção que os pescadores cantavam no mar. Dizia, como exemplo diário, que desgraçada é a mulher que casa com um homem do mar pois um marítimo não deveria se casar. Iemanjá, entidade caprichosa, é como a figura mais de mãe e esposa que competem pela atração dos pescadores. O mar representa a liberdade e ao mesmo tempo a morte.
Lívia, a mulher que vira esposa de Guma e que sempre o espera com medo, é quem tenta recusar o destino e tneta falar pra Gumar abandonar a profissão de saveiro.
Em oposição ao heroi puro Guma e ao romance idealizado com Lívia, temos o personagem de Rufino, um homem negro que simboliza quem cruza para fora da cultura dos pescadores. Rufino mora com Esmeralda e é na casa dela que Lívia fica quando Guma está fora com seu barco Valente
Essa quase arquetipia do pescador e de sua companheira já suscitou músicas, livros e filmes. Ao reparar em Dorival Caymmi que é exatamente assim.
"É doce morrer no mar, nos braços de Yemanjá".
O herói e o destino sem retorno. Ele enfrentar a tempestade para salvar o navio, cumpre o que já parecia escrito: suas próprias habilidades são aquilo que vai matá-lo por fim. É uma espécie de noção socialista de destino coletivo imbuído na conciência do homem simples.
Em Mar Morto, todos os eventos são vividos de forma coletiva. O casamento de Guma e Lívia se torna um marco importante na história do livro: ele acontece cerca de doze dias após as suas núpcias, como se costuma dizer.
O mar é parte como personagem também. Na trama, o mar tem uma força simbólica, é onde extrai a vida, o sustento (o peixe), é de onde também vem o perigo que pode matar a vida do pescador. O mar é demiurgo e traiçoeiro, não tem cabelo para se agarrar e até oa melhores são pegos na rede de Iemanjá. A comparação com a Grécia antiga é impossível de negar. Assim como é nas religiões de origem africana também. No livro, há uma passagem que compara o amor ao mar também.
Aliás, é a deusa das águas que os pescadores chamam por conselho e com oferendas. É ela quem pode proteger os pescadores segundo a mitologia popular. O livro também já trás forte personagens femininas, como Rosa Palmeirão como o oposto a Lívia. Lívia vem de fora da comunidade dos pescadores, gerando então nela mais medo de perder o marido por não estar acostumada.
Existem várias músicas, né? Chamadas emboiadas, mas também há músicas que caracterizam o estilo dos pescadores e dos saveiros dessa região.
Uma delas é muito interessante e é cantada pelo personagem do Velho Francisco que assusta a Lívia com o realismo de suas estórias e que ele canta no dia do casamento deles:
"A noite que ele não veio" — que fala de tristeza:
"Ele ficou nas ondas, ele foi se afogar / Eu vou para outras terras, que meu senhor já se foi /
Nas ondas verdes do mar, nas ondas verdes do mar / Eu vou para outras terras."
![]() |
| Edição em turco da obra Mar Morto. |





Comentários
Postar um comentário