Inocência (1983): Clássico de Walter Lima Jr. sobre fundamental romance de Taunay representa a entomologia e os viajantes no Brasil
Com Fernanda Torres e Edson Celulari, baseado no livro de Taunay de 1872. No Sertão de Santana do Paranaíba, mora uma jovem de nome Inocência, quase etérea de imagem e utópica de forma. Um dia, o médico Cirino de Campos conhece o pai dela, Pereira, ao longo do caminho de uma estrada para a vila. Pereira fala que tem uma filha doente de maleita (malária) e Cirino se oferece para examiná-la. Em paralelo, o naturalista Meyer, um cientista alemão interessado em coletar borboletas para catalogar a diferente flora brasileira, acha uma borboleta azul que ele batiza com o nome de Inocência, a Papillio Innocentia
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Esse texto vai ter longo mesmo, tem citações de todos os artigos que encontrei do tema, em inglês (do livro em inglês também do James W. Wells), e de outros artigos de teoria literária, e comparação do próprio filme de 1983, como também outras tentativas de adaptação, a primeira delas por Vittorio Capellaro em 1915-17, o mesmo que dirigiu uma adaptação de O Guarani em 1916.
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Capa da edição japonesa de Inocência ao estilo animé |
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Filme mostra no início toda a transformação da lava, da crisálida virando estado de pupa, para finalmente virar uma borboleta e perder a casca. |
Wharton pode ter conhecido a obra de Taunay (já que ela era uma moça que viajou o mundo inteiro), por exemplo, em 1915, uma ópera suíça de Leonardo Kessler (que depois veio morar no Brasil e responsável pela criação da primeira orquestra sinfônica de Curitiba), e citou o livro brasileiro no título Papillio Innocentia, a borboleta brasileira citada no livro. Inocência, apesar de morta pela tradição vira ciência nos museus da Europa, documentada como beleza imortal, é um tanto reflexivo a intenção de Taunay com essa metáfora.
Outra curiosidade para além da possibilidade de inspiração para a obra A Época da Inocência de Edith Wharton, essa é por conta de diversos motivos, o livro de romance brasileiro mais traduzido para outras línguas. Foca nessas regras de etiquetas mortais e por abordar essa "Idade Dourada", cultivou a imaginação dos americanos para temas semelhantes na versão deles, sem o uso das armas e da masculinidade, a coerção era feita com luvas e não com a espadas. O livro serviu como influência por abordar uma "idade média tardia no Brasil" perdida no século XIX, longe da civilização e das novas regras de etiqueta da burguesia liberal.
Mas a referência e comparação aqui são válidas, já que Edith Wharton escreveu em 1920:"A Época da Inocência", e além de ser também sobre a obrigatoriedade do casamento, é tão bruto quanto Inocência de Taunay e há um plágio de estilo na forma terminada, onde não gostamos em absoluto de nenhum personagem, apenas aqueles que estão ali de passagem, como o próprio leitor.
As pérolas do filme são muitas, tem o pai de Fernanda, Fernando Torres, como o padre Cesário, temos uma das primeiras aparições de Fernanda Torres como atriz e arrasando muito, que viria a fazer A Guerra de um Homem (One Man's War), com Anthony Hopkins, em 1991, e Terra Estrangeira (1995), de Walter Sales, ela estava sensacional no filme, é absurdo o quanto ela flutuou entre gêneros como atriz, entre os dramas iniciais da carreira, e por fim comédia nas séries, e agora ela escreveu um livro também. O Edson Celulari encaixa também no papel por também não fazer o cara extremamente carismático, mas também por marcar o fatalismo do destino do doutor.
Inocência é uma das obras mais conhecidas do regionalismo brasileiro, abordando as relações peculiares da elite do Mato Grosso antigo. Um romance épico e extremamente metafórico e político, adaptado maravilhosamente bem em cada detalhe, com fotografia, cenário singulares e com diversos atores famosos e de peso.
O médico Cirino cuida de doentes pelo sertão mato-grossense, mas o que ele não contou é que ele era formado em farmacologia e não em medicina propriamente dito, isso significa então que ele é mais pobre mas esconde. Ele se apaixona por Inocência filha de Martinho Pereira e prometida de Manecão Doca.
Quando o Meyer vai embora sem se despedir de inocência, ele diz que o nome dela será lembrado na espécie nova de borboleta que ele nomeou de Inocência. Em certo ponto depois disso, Cirino quer fugir com ela e traça um plano depois de vários encontros escondidos. Mas ela recusa não querendo abandonar o pai e ser considerada uma 'mulher perdida' por fugir com ele. Interessante essa dimensão dela entender que também fugir não era a solução, já prevendo o carácter de tragédia anunciada do casal.
Manecão volta e é recebido por Pereira com muito mais ânimo que Inocência que parece muito assustada ao o ver. Ela se tranca no quarto e comenta que ela não quer se casar. Ela fala que sonhou com a mãe e ele diz que matará ela se ela não quiser se casar. ele obriga ela ir para a sala e receber ele e como ela não o tratou bem, resolve dar um tapa na cara e surra na filha.
Existem vários elementos na narrativa que são ao estilo do romance medieval backtiniano, a ideia do encontro, desencontro dentro de "estradas da vida", como é aleatório o encontro com o pai de Inocência. A ideia também da casualidade e de outras inflexões da vida, como a inevitabilidade dos encontros tristes e tragédias dramáticas como essas, que lembram como se fosse um "Romeu e Julieta do sertão". Padre Cesário é o padre que Cirino tenta pedir ajuda sobre a questão de Inocência e que vê ele morrendo depois. No livro, quem mata no duelo é o Menecão ao médico e não o pai, diferente do livro onde quem vai para o duelo é o noivo prometido da moça.
Filme com a Fernanda Torres e Edson Celulari de 1983, ano bem próximo do fim efetivo da ditadura militar, o filme é do cineasta Walter Lima Jr. (cineasta aqui do Rio-Niterói e do Cinema Novo), fazendo um cinema ao mesmo tempo apaixonado pelo histórico e pelo contemporâneo. Outro filme no mesmo estilo dele é "A Ostra e o Vento", onde uma moça acaba se apaixonando pelo vento por se sentir presa a realidade de seu pai, como no filme Inocência também dá esse tom.
Agora Walter Lima Jr volta fazendo um filme cientificista e clássico, alguns dizem o seu melhor filme, sobre as expedições estrangeiros e seu efeito na divulgação não somente do olhar estrangeiro (antropológico), mas também da fauna e da flora brasileiras lá fora, a formação de expedições como também a de Charles Darwin e de outros viajantes catalogaram e visitaram diversos locais do Brasil em busca de espécies desconhecidas, mostraram a particularidade de muitos biomas brasileiros.
Aparentemente, a lenda é que ele queria fazer um roteiro que teria sido originalmente de Lima Barreto (o grande cineasta de O Cangaceiro, (1954), e que teria tido até indicações de Humberto Mauro (de um roteiro anterior bem mais antropológico e sobre a natureza), e no lugar, escolheu-se pela ideia de Lima Barreto em um roteiro bem fiel ao livro de Taunay, com um "roteiro de ferro" feito depois de sua morte. Os direitos foram parar com Lulu de Barros e Fernando de Barros que filmariam em 1949, com Maria Della Costa no papel de Inocência.
Em um artigo da USP, de Cesar A. Zamberlan, comenta alguns fatores sobre Walter Lima Jr e uma certa “cinearqueologia de costumes” proposta através do resgate do clássico da literatura para a perspectiva da forma filmada final, em uma forma de cine movimento capaz de esculpir o tempo e dar a ambientação necessária.
Walter Lima Júnior queria fazer justiça aos dois adaptando o romance de Taunay e, mais do que isso, fazendo-o a partir do roteiro de Lima Barreto e com as indicações que Humberto Mauro passara a este, já que o projeto de adaptação de Mauro não foi em frente e os direitos ao livro acabaram nas mãos de Lulu de Barros e Fernando de Barros que o filmaram, em 1949, com Maria Della Costa fazendo o papel de Inocência. A adaptação de Walter Lima é a terceira para o cinema e baseado no livro de Visconde de Taunay.
Taunay retrata no Sertão de Santana do Paranaíba, uma mulher tão submissa e utópica que seu único refúgio e o ideal de romance platônico com o Cirino, formado em farmácia (fazia o papel de médico ao receitar os remédios para curar as doenças dos locais que visitava).
Como o Romantismo estava em decadência (não compatível com um país escravocrata), na época em que a obra foi escrita, pode-se considerá-la de transição entre o Naturalismo e Realismo, devido a uma grande e infalível caracterização do homem como produto do meio, isto é, ele age de acordo com o tipo de vida que leva.
Detalhe para a figura de Tico, figura que lembra o Quasímodo de Victor Hugo, é um anão Tico mudo que vigia Inocência e dorme (como um cachorro como diz o livro) na porta de seu quarto (algo a ser ponderado, será que o anão tinha sentimentos em relação a Inocência? já que ele ficava tão próximo dela?). Ele que relata a Pereira seu romance com Cirino, enquanto eles se encontram no laranjal eles são flagrados por ele. Esse elemento é extremamente backtiniano e pantomímico (como o anão que tudo vê e participa da estória em condição de submissão, usando a justificativa que é a metáfora do modo de vida escravocrata que essa família vivia.
Essa ideia da beleza que nasce do meio de uma perversidade bruta, e que tem destino certo e selado desde do nascimento, sem nenhuma possibilidade de escolha. Pereira convidou Cirino a ficar em sua casa e lhe arranjou alguns pacientes.
Outro hóspede chega trazendo consigo um servo engraçado e uma carta do irmão de Pereira e permanece em sua casa. É o Dr. Meyer, naturalista alemão que embarcou no Brasil com o objetivo de encontrar novas espécies de insetos e caçar borboletas para documentar e mandar de volta para análises na Alemanha, onde Meyer morava, na Saxônia.
Embora o anfitrião o tenha recebido normalmente, não compreendeu os elogios que o recém-chegado entregou para sua filha e começou a desconfiar dele, ainda mais depois que ele nomeou a borboleta com o nome da filha, mas depois que ele fez suas pesquisas, ele foi embora e tranquilizou Pereira. Mas quando sua filha diz que não vai se casar, leva uma baita surra do pai, aí o pai depois se encontra com Cirino e o mata a sangue frio, Inocência ao saber que teria mesmo que ser casar com Manecão morre de tristeza. É quase medieval a relação da tragédia aqui. O livro termina com Meyer recebendo uma grande homenagem na Alemanha por sua descoberta fictícia: a borboleta Papilio Innocentia.
Essa ideia parecida da descrição extremamente científica de costumes particulares ao meio natural. Coisas absurdas, como Inocência ser analfabeta por que o pai tinha medo de ensinar ela a ler a e escrever e ela não ser "inocente" mais, esse detalhe é monstro para entender o objetivo trágico que o livro brasileiro provoca, fala sobre a hospitalidade sertaneja, os acordos entre famílias para preservar o poder, a questão da honra antiga, o analfabetismo como tática de dominação das mulheres (descritas como "de meter medo" e frágeis como se feitas de vidro) e a crendice aos juramentos aos santos, a vingança, o duelo, coisas que já tinham caído no mundo ocidental, mas não nesses cantos do Brasil.
As intenções do médico são dúbias, para um lado ou outro, Inocência era inocente mesmo, como seu pai, era analfabeta e por isso não tinha como argumentar para além de morrer para não casar com Manecão, como tinha prometido o padre Cesário para o médico. Sobre Machado, vale lembrar que Inocência 1872 é do ano posterior de publicação do primeiro romance de Machado de Assis, Ressurreição, de 1873. Mostrando essa cadência de época pós Guerra do Paraguai.
Mesma coisa pensou Machado mais velho, quando foi escrever em "Esaú e Jacó", sobre uma história com tons de drama e romantismo parecida com Inocência (também como metáfora da questão nacional), Esaú e Jacó é de 1904, penúltimo romance de Machado de Assis, nele o personagem mais interessante é o narrador, o conselheiro Aires, quando Flora morreu e não teve que casar com ninguém, era uma sorte pelo menos ninguém a ter. Flora já havia ficado doente antes ao achar que o pai viraria presidente de província de Mato Grosso (mesmo lugar abordado em Inocência).
O livro Inocência é um marco da literatura e foi "respondido" por Machado de Assis em uma de suas obras, Esaú e Jacó, criando uma personagem parecida com Inocência, Flora que também morre por não querer casar (mesmo tema), em Flora a beleza do feminismo é mais visto, já que o tema é mais sobre a moça não querer casar com ninguém, em Inocência é a impossibilidade de ficar com quem se ama.
Aqui Flora significa Fauna e Flora (significa uma metáfora do Brasil), o que os cientistas e naturalistas vieram documentar de novo e diferente no Brasil, Inocência é o estado de dúvida dos costumes medievais de uma terra que não teve Idade Média. Fala da mesma coisa, só que com essa brutalidade toda já mastigada nas estruturas de boas maneiras e etiquetas da típica burguesia moderna, contrastando com o relato de Brasil Império. Já no romance regionalista brasileiro "Inocência", de 1872 (mesma época que aborda Edith Wharton), temos a descrição de locais aparentemente "afastados da civilização", mas completamente iguais na sua forma de opressão.
Talvez o fatalismo do livro de Taunay é que a moça por não se casar como amado (o médico/curandeiro),e que se apaixonou por ela por ver ela febril enquanto cuidada dela representar um lado de idealismo transcendental perdido, que escolhe a mulher inalcançável e portanto, escolhe a tragédia anunciada, acabou indo para o duelo clássico mano a mano com o prometido da moça (isso no livro, diferente do filme), que nada sabia da vida e do mundo e vivia em uma bolha de vigilância constante com o anão aos seus pés e diversos escravos na casa.
Inocência parece além de Romeu e Julieta do sertão uma referência a personagem Teresa do romance Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco, moça sertaneja simples, carinhosa, meiga e bela. Após ter feito 15 a 16 anos, foi prometida para se casar com um homem (Manecão) escolhido pelo pai (Pereira), embora seja apaixonada por Cirino.
O autor de Inocência era da família do famoso pintor da missão francesa (um grupo de cientistas que vieram catalogar e visitar a fauna e a flora brasileira). Isso tudo tem a ver com a história do livro Inocência, já que é sobre uma expedição de um estrangeiro que busca registrar o Brasil, muito como sua família fez e isso encontram práticas que lembram a idade média trovadoresca, digamos assim. Inocência, coitadinha, até mesmo pediu para aprender a ler e lhe foi negado... Exatamente nesse dia fazia dois anos que o seu gentil corpo fora entregue à terra, no imenso sertão de Sant’Ana do Paranaíba, para aí dormir o sono da eternidade.
O livro de Taunay foi publicado em 1872 e retrata costumes, pessoas e ambientes do leste sul-mato-grossense (sertão), notadamente a cidade de Paranaíba. Meyer é um personagem interessante, o naturalista formado em filosofia, representa a visão ocidental sobre o Brasil vinda dos cientistas, ele era o naturalista alemão que embarca no Brasil para conhecer novas espécies de insetos; hospedando-se na casa de Pereira porque trazia consigo uma carta de Chiquinho, desperta insegurança no anfitrião quando elogia Inocência e lhe dá um vinho do Porto de presente.
Mas a referência e comparação aqui são válidas, já que Edith fala da mesma coisa, só que com essa brutalidade toda já mastigada nas estruturas de boas maneiras e etiquetas da típica burguesia moderna, contrastando com o relato de Brasil Império, o livro de 1872, é sobre eventos que acontecem um década antes, mostrando o registro do cientista que veio registrar a vida da borboleta Inocência.
A estória acontece entre os dias de 15 de Julho de 1860 e 18 de Agosto de 1863 são as únicas datas do romance. A primeira data diz respeito ao dia em que Pereira se encontrou com Cirino, e a segunda data diz respeito ao dia em que Meyer, já no final do romance, está na Alemanha e apresenta à comunidade científica do país a descoberta da Papilio Innocentia (esse evento nos é noticiado pelo Die Zeit).
O legítimo sertanejo, explorador dos desertos, não tem, em geral, família. Enquanto moço, seu fim único é devassar terras, pisar campos onde ninguém antes pusera pé, isso está presente em um certo espírito positivista, cadente em alguns militares de descrever as particularidades científicas do Brasil. Depois disso, a tradição seguiu em Guimarães Rosa, ou mesmo em Os Sertões, de Euclides da Cunha (1902) já possuíam uma influência gigante de Taunay e já eram escritores pré modernos.
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