Lula, O filho do Brasil (2010): Filme é citado na revista Times que traz Lula na capa; Veja todas as curiosidades e teorias sobre o filme
O filme acompanha a História e trajetória do ex-presidente da República, Luís Ignácio "Lula" da Silva, desde de seu nascimento e infância difícil com sua mãe, Eurídice Ferreira de Melo, a Dona Lindu no interior agrícola no interior de Pernambuco. Depois, a morte de sua mãe, sua entrada no sindicato até se tornar um líder sindical, sua primeira prisão política, aos 35 anos, detido pela polícia da ditadura militar. Baseado no livro A História de Lula: O Filho do Brasil, de Denise Paraná. Na época do lançamento do filme, o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pediu que uma exibição especial do filme fosse feita em Washington
O sonho de Brasil que Lula tinha perseguido durante sua presidência de 2003 até 2010 foi despedaçado, ele diz. Através de programas sociais que eram pagos com o preço de produtos do boom brasileiro como aço, soja e óleo, fizeram do governo de Lula um governo que tirou milhões da pobreza e transformaram a vida da maioria negra e indígena do país. Bolsonaro trouxe o fim a tudo isso, acabando com comunidades e trazendo o fim as políticas de acesso a educação e ao fim da prática de violência contra as comunidades negras, como também limitou a proteção as terras indígenas e a floresta amazônica, ao combate da COVID-19 que matou aproximadamente 660,000 de brasileiros.

História por trás do filme
O filme foi baseado na tese de doutorado em História na USP da jornalista Denise Paraná. O roteiro foi escrito por Paraná, Fábio Barreto e Daniel Tendler, enquanto o escritor Fernando Bonassi deu o acabamento final no roteiro.

Segundo Denise, a trajetória de vida de Lula coincide com vários aspectos marcantes da história do Brasil, motivo pelo qual ela decidiu escrever o livro, que é sua tese de doutorado em História pela Universidade de São Paulo (USP).
Nas suas pesquisas para o livro, Denise entrevistou Lula e várias pessoas ligadas a ele. Dentre os fatos da trajetória de Lula e da História do Brasil que se encaixam, de acordo com Paraná, estão a morte da primeira esposa no parto (ela havia contraído hepatite) na mesma época em que o Brasil detinha um dos maiores índices mundiais de morte no parto, a migração da família de Lula no momento em que o Brasil presencia sua maior onda de migração interna e o alcoolismo que marca o pai de Lula no período de maior incidência deste vício no Nordeste, devido o trabalho pesado e exploratório

Já o diretor Fábio Barreto é filho de Luís Carlos Barreto e Lucy Barreto, e irmão do também cineasta Bruno Barreto. Atuou no primeiro curta-metragem, "Três Amigos que Não se Separam", quando tinha nove anos; no filme também atuaram sua irmã (Paula Barreto).
Foi assistente de direção de Carlos Diegues em Bye Bye Brasil (1979). Iniciou sua carreira no cinema aos 20 anos, dirigindo o curta-metragem A Estória de José e Maria (1977). E estreou como diretor de longa-metragem no Festival de Cannes de 1982, com Índia, a Filha do Sol (1982), inscrito na Quinzena dos Realizadores; tinha 24 anos. Seu filme O Quatrilho (1995) foi indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1995.

Leitura do filme
Acredito que analisar este filme é uma tarefa obrigatória para todos que querem entender melhor o cenário do audiovisual e da política no Brasil atual.
Segundo Alessandra Meleiro e Stephanie Dennison, no artigo Brazil, soft power and film culture, debatem que "Lula, O Filho do Brasil" é um filme que representa e foi impactado pelo soft-power brasileiro. A nação parecia determinada a maximizar uma gama de oportunidades (a próxima Copa do Mundo e as Olimpíadas, por exemplo) para assumir um papel mais significativo na política global. Isso deu uma contribuição potencial ao cinema ao utilizar a narrativa do soft-power brasileiro, com foco na política sendo representada de maneira cinematográfica e melodramática, no apoio à divulgação do cinema brasileiro no exterior e no lugar da produção cinematográfica na visão do soft-power brasileiro. Existiam outros filmes sobre presidentes, mas com estilo melodramático e pessoal, acompanhando cada fase da vida, amores, romances e conquistas: parece um jeito tipicamente brasileiro de contar uma história.

Vamos começar em torno das questões de marketing e publicidade do filme na época. No contexto do longa, Lula estava saindo da presidência da República com 80% de aprovação. O seu governo registrou crescimento de 32,62% do PIB (média de 4%) e 23,05% da renda per capita (média de 2,8%), maior índice desde Getúlio Vargas.
O lançamento do filme, janeiro de 2010, foi alvo de críticas pelo fato de que era um ano eleitoral, em que seria eleito o presidente sucessor de Lula. Ou seja, a data de lançamento do filme seria proposital, uma tentativa de ajudar na eleição da candidata do partido de Lula ao governo. Dilma Rousseff, candidata à sucessão de Lula, já admitiu que o filme pode influenciar no resultado das eleições. Isso fez com que muitos dos patrocinadores do filme sejam empresas que cresceram durante seu governo. Por isso, a Agência Estado e Revista Época assim como uma esquerda mais liberal, criticaram o filme por ter sido patrocinado por diversas empreiteiras, algo extremamente incomum no mercado brasileiro, tanto que no início do filme, anuncia-se que a obra “foi produzida sem o uso de qualquer lei de incentivo fiscal federal, estadual ou municipal, graças aos patrocinadores”. Mas se o filme é sobre o Lula, alguém que veio do povo e lutou para ter sua casa e suas coisas, faz todo sentido empresas que ganharam com seu governo patrocinarem o filme, não é?! Isso se chama política.

Na lista de patrocinadores, constam muitas empresas, como CPFL, Oi, Hyundai, Brahma e outras. Mas tudo que a grande mídia com parte da esquerda "crítica de cinema" new yuppie reparou foram as empreiteiras Odebrecht e Camargo Corrêa, apenas por serem na época as duas maiores do país e que são investigadas na Operação Lava Jato, da Polícia Federal e do Ministério Público.
A Operação Lava Jato era coordenada pelo então juiz Sérgio Moro. Depois das empresas, em 2018 o próprio Lula se tornou um alvo, e foi preso naquele mesmo ano, sendo impedido de concorrer a eleição que viria a eleger Bolsonaro. Entretanto, ao empossado o novo presidente uma surpresa: ele indica como ministro da justiça de seu governo o juiz Sérgio Moro, que abandonou o magistrado ao aceitar o cargo, levando questionamentos sobre sua parcialidade ao julgar e prender Lula.

Uma campanha "Lula Livre" foi organizada pelo seu partido, o Partido dos Trabalhadores (PT), e uma Vigília pela sua liberdade foi organizada na porta da Polícia Federal em Curitiba, onde estava preso. O impacto da Lava Jato na sociedade brasileira havia sido tão grande, com suas ações e versões tendo ampla cobertura da mídia e jornalistas que surfavam na onda de denuncias, que conseguiram até mesmo alterar a mudança na lei constitucional para aprovar a prisão após condenação à segunda instância. Hoje, a lei já foi revista e revogada, e por isso gerando a soltura de Lula, em novembro de 2019.

Depois disso, o Supremo Tribunal reviu as condenações do juiz Sérgio Moro em uma série de casos, declarando sua suspeição, fazendo que todas as penas e condenações de Lula fossem revistas. Hoje, além de inocente, Lula está elegível outra vez e é o favorito para as eleições de 2022.
Se é assim, não devemos reconsiderar a condenações as empresas e empreiteiras condenadas pela Lava Jato? Vários juristas argumentam baseados em investigações em empresas estrangeiras, que sempre se prende os envolvidos mas se mantém as empresas.

Isso também vale para o filme, que sempre foi criticado por "especialistas" como "chapa-branca", mas em pleno 2021 ganha nova conotação e DEVE ser revisto. Primeiro, por ser o único filme exclusivamente sobre Lula que temos. Segundo, após pandemia e governo Bolsonaro, aquilo que estava "dado" no filme, hoje não está mais e é isso que ninguém notou do filme.

A sequência de sua infância com Dona Lindu e sua família é a parte mais legal do filme. O atorzinho que faz o Lula arrebenta, e nessa sequência vemos o passado rural que marcou a vida de muitos brasileiro e costumes como do "pau-de-arara", carro que levava os boias-frias e outros de uma cidade a outra. O pai de Lula, é representado de uma maneira até mais leve do que ele mesmo conta em depoimentos e entrevistas, sendo mais bonachão do que mal. Ele, diferente da mãe que quer que ele estude e sempre deu apoio a Lula independente de suas escolhas, queria que Lula trabalhasse, algo pode parecer mal mas que é comum no Brasil. Seu pai parece no filme a representação perfeita do eleitorado que Lula precisa ajudar.
Dona Lindu é demonstrada como grande protagonista do filme, tanto que no pôster do filme a atriz Glória Pires tem maior destaque. Esse ponto é interessante pois assim explora algo que Lula sempre comenta mas poucas pessoas se atentam: o papel das mulheres em sua vida. Diferente da maioria dos baby-boomers, marcado por um traço machista do orgulho do heterossexual e do macho, Lula é mostrado como um jovem sensível. Por exemplo, na cena onde a professora (Lucélia Santos, uma das fundadoras do Partido Verde) quer o adotar por ser inteligente. Depois, quando ele começa a trabalhar, em seu primeiro dia onde é treinado pelo grande Antônio Pitanga, ele suja sua roupa de graxa de propósito para mostrar para a sua mãe que havia trabalhado duro. Ou na cena que ele assiste a novela Irmãos Coragem com sua noiva, mãe e irmã, sendo o único homem na sala.

Essa sua sensibilidade foi transferida para a atuação política e sindical, e o filme mostra isso bem na cena da greve, onde o jovem Lula aceitar ir com o movimento (PCB) para a fábrica, e danificar estava tudo bem, mas quando viu os patrões da fábrica sendo mortos (em uma sequência que lembra o clássico "A Greve"), corre como o diabo da cruz, demostrando sua vertente mais social-democrática.

Então, ele começa a se interessar pelo sindicato patronal. O sindicato patronal é aquele organizado pela própria direção da fábrica para ouvir e atender gradualmente as demandas dos trabalhadores, justamente para evitar greves e motins. Esses sindicatos eram majoritariamente governados por filiados ao PTB, onde Lula se encontra mais que no PCB. Coincidentemente, ele conhece sua primeira esposa e começa morar com ela em uma casa recém construída em um bairro humilde (o que justamente explica patrocínio de empreiteiras de maneira lógica, por ser algo mostrado no filme, e não as teorias da conspiração da Lava Jato).

A cena da morte da primeira esposa e filho de Lula, história pouco conhecida por muitos do seu passado, deixam claro que foi um caso de negligência médica pelo fato do jovem casal não ter dinheiro para ter acesso a saúde privada ou para fazer uma cesariana, realidade de muitos no Brasil até hoje.
Outra cena clássica baseada claramente em história oral, entrevistas e depoimentos de Lula, é onde ele conhece dona Marisa Letícia, ex-esposa de um taxista que foi assassinado. Lula simplesmente chegou se apresentando para a mãe como namorado de Marisa, mesmo sem ser, algo que a constrange mas demonstra seu carisma. O filme se esforça para mostrar Lula como um cara romântico e conquistador, aproveitando sua popularidade com o público feminino (vide o recente burburinho em torno da foto das coxas do Lula). E logo que ele se casa com ela, ele entra de vez pro sindicato ao estilo italiano.
As partes mais bem feitas do filme são as sequências de greve e confronto com a polícia militar da Ditadura. O filme faz um esforço muito bacana de misturar a narrativa dramática do filme com cenas reais de greve e de reportagens com narrações da época.

É mostrado que a grande sacada de Lula no sindicato foi pensar em sentido organizacional e incluir técnicas de comunicação e mídia para conscientizar os trabalhadores da importância das reuniões e da participação no sindicato e na sociedade civil. Também elementos constitutivos da identidade petista e da história do PT foram explorados no filme, como a ocupação de fábricas, a participação de mulheres na militância e a ligação com a igreja católica e a teologia da libertação.

Quando Lula é preso, e sua mãe morre, é como se houvesse uma virada onde Lula não tivesse mais escolha de não ser líder: ele já se tornou um símbolo, um momento muito bem construído pelo filme.
O filme pode ser criticado por usar uma técnica demasiada episódica para um filme, parecendo mais uma série, e poucas técnicas formais. Porém há uma certa genialidade do filme para mim em justamente em discutir a vida e a importância de Lula de uma maneira melodramática. Assim a narrativa de Lula se confunde com a das pessoas e dos jovens que cresceram no seu governo, e ganha a proporção nacionalista de falar para os filhos do Brasil. Como os primeiros de sua família a irem para faculdade, por exemplo, e conseguiram o diploma de graduação (como eu).

A grande sacada do filme é a forma correta de usar a história do Brasil, de maneira a casar estruturalmente entre os momentos políticos do Brasil e a vida pessoal de Lula. Um filme que vale ser revisto com atenção.
Disponível no Globo Play.
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