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Os Maias (mini-série, 2001): A Elite Decadente Pós-Reformas Pombalinas e o Retrato do Naturalismo Trágico na Literatura Portuguesa




Os Maias foi uma série de 2001 baseada no romance homônimo de Eça de Queirós, de 1888, a história se passa em Lisboa, na segunda metade do século XIX, centrada na família da alta aristocracia que habita a casa conhecida como o Ramalhete. Na primeira parte, o patriarca Dom Afonso da Maia vê seu filho Pedro se apaixonar por Maria Monforte  uma jovem cuja família não é aceita pela nobreza tradicional. Mesmo contra a vontade do pai, eles se casam e têm dois filhos: Carlos Eduardo e Maria Eduarda, que se encontrarão sem se conhecer anos depois. Série que foi criticada por seu texto muito formal e fiel ao livro original. Com Ana Paula Arósio, Fábio Assunção, Walmor Chagas, Leonardo Vieira, Simone Spoladore, Marília Pêra, Matheus Nachtergaele e Selton Mello. 



A minissérie foi gravada durante seis semanas em várias regiões de Portugal, como Vale do Douro, no norte do país, e a cidade de Sintra. Com alocações muito bonitas e dibersos excertos falados do tezto original denso de Eça.
Sinceramente, eu fico assustada com a qualidade da produção antiga audiovisual. Isso aqui em seu realismo e barroquismo consegue não ser uma adaptação perfeita, mas infinitamente melhor qualquer série inglesa ou americana de época. Dá certo orgulho ver a tentativa. 

Apenas critico um pouco que algo na direção queria muito exaltar o livro e por isso que ás vezes os ângulos de filmagem eram um pouco fora demais do convencional, mas deu para notar que isso era para enfatizar o naturalismo e o psicologismo dessa história que ressoa ao surgimento do drama ibérico e latino. A data de publicação do livro foi 1888, data final da libertação da escravidão no Brasil. Visto assim como a última independência. 

No fim, ele parece correto ao se distanciar dos personagens pela tragédia anunciada deles, ao mesmo tempo, concordo que ele exagera na naturalização dos preconceitos, os personagens tem sentimentos quase universais. Sinceramente, eu nunca tinha lido, mas peguei pra ver e me surpreendi com a qualidade do tempo, bem reflexivo e histórico. 

O texto de Eça é cheio de trupes, ele era um anglófilo e morou por anos em Londres. Seu texto descreve a cólera e a lira dos 20 anos e os costumes dos jovens graduandos de Lisboa muito bem. Selton Mello interpreta um estudante que não quer se formar pra não voltar pra sua cidade (que segundo ele só tinha beatas). 


Primeiro, Pedro Maia era um jovem descrito como bonito mas casto, havia se guardado muito, segundo o pai. Já o pai de Pedro, Afonso, é a descrição do liberal de esquerda da época, a crueldade da pena de Eça e descrever o homem da "esquerda" da época como aquele que recusa a entrada do "sangue inferior" na família, simbolizava pela coisa da "espanhola quente" que arrebata os taciturnos e frios rapazes portugueses. No caso, o livro dá razão a esse pai preconceituoso.   


 Mais tarde, Maria foge com um príncipe italiano, levando a filha consigo e abandonando o marido e o menino.  Desesperançado, Pedro se suicida, e Afonso passa a criar o neto Carlos Eduardo e finge que a mãe dele está morta. 



A mãe é simplesmente interpretada pela atriz do filme Desmundo, a linda Simone Spadole. Já Teresinha (a noiva da infância prometida em Os Maias) simboliza a herança "Jane Eyre" e o arquétipo da mulher inglesa/protestante são usados pra descrever o tema das velhas piadas sobre a beleza tanto das portuguesas quanto das inglesas (injustamente ao meu ver). 




Os pais de Carlos Eduardo e Maria Eduarda na juventude apaixonados. 


 
Anos depois, Carlos volta de estudos na Europa, mora em Paris, cheio de ideias e ilusões, e conhece uma mulher misteriosa chamada Maria Eduarda, por quem se apaixona profundamente. Porém, ela está casada com Castro Gomes. 

É comentado sobre essa queda da hegemonia portuguesa por conta dos novos ventos, enquanto alguns admiravam as queijadas (imponentes estruturas arquitetônicas) e todos os costumes perdidos portugueses. Dizendo que agora era o Brasil que mandava neles. 

Os dois vivem um romance intenso, sem saber que são irmãos — filhos de Pedro e Maria Monforte. Quando o segredo é revelado, a tragédia se abate sobre toda a família: o amor se torna um pecado fatal, o ciclo de desgraças dos Maias se fecha e o Ramalhete fica vazio, símbolo da decadência da nobreza portuguesa da época.






Mas a piada envolve rir devagar da escalada incestuosa que a idealização romântica provoca.  Ao ele recusar a moça de estirpe muito religiosa e sem vaidade, ele declara que ela era "como uma irmã", mas sua falta de senso faz ele se apaixonar pela sua irmã mais velha desconhecida. Essa é a maior ironia do livro. Rir do idealismo purista racial que acaba por atrair o próprio sangue. 

O primeiro Maia era fraca e romântico, o segundo mais "normal" até ser tão normal que passou a idealizar uma mulher loira, cosmopolita e culta que não existia em Portugal, e o nosso médico, filho de Maia mais fraco que havia se matado, passa a sonhar com uma mulher de fora, criada em orfanato na Inglaterra (depois que a mãe havia dito que ela havia morrido), e depois foi "salva" casando com um brasileiro rico. 



Matéria no O Globo sobre a série dizendo que teve diversos cenários filmados em Portugal.


Ou seja, na visão do doutor, sua musa e donzela inalcansável estava presa em um casamento com um homem inferior, não loiro, isso na visão preconceituosa de Eça de Queiroz. Sua literatura msrca a fase do determinismo biológico, em joga na correne do naturalismo 


​ Teresinha é o exemplo do  conservadorismo religioso que sufoca a vida, Na trama de Eça, Tereza (a noiva "adequada" e arranjada para Carlos) representa a mulher criada sob a sombra da Igreja, do recolhimento e do conservadorismo tacanho da elite portuguesa tradicional.

​A estética da repressão: O fechamento e a religiosidade devota não são vistos apenas como posições morais, mas como algo que murcha e apaga a beleza física e a vivacidade da mulher. Eça faz uma crítica direta: ao transformar a mulher em um ser puramente piedoso e resignado, a cultura ibérica aristocrática cria figuras "apagadas", sem o magnetismo sensual e a aura de vida que fascinam homens como Carlos.


​O contraponto com Maria Eduarda: Enquanto Teresinha, uma garota de fé, a "noiva do lar", pálida e moldada pela convenção, Maria Eduarda é luminosa, cosmopolita e livre. Carlos rejeita a virtude sem graça da tradição local, em nome do arrebatamento e do ideal europeu refinado — o que o leva direto ao abismo da escola incestuosa, que vai o levar a conhecer sua irmã perdida de quem ele nem sabe da existência. 


A resposta a Jane Eyre e o arquétipo das inglesas:
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A comparação que podemos fazer é com  Jane Eyre (de Charlotte Brontë) e o estereótipo das inglesas. Aqui a Maria de origem estrangeira e mal vista pelo pai de Pedro por ser filha de traficante de escravos. Interessante reparar que na Europa ser traficante de escravos te equiparava com os próprios escravos na hierarquia portuguesa, significa que não vinha de família de estirpe. 

Ou seja, ela sofre preconceito do pai liberal e politizado, porém, Pedro é fraco por em nenhum momento achar que pudesse haver contradição ali. Logo, essa é a ironia fina e o humor trágico de Eça, ele quer dizer que todos estão um pouco errados, vivendo o compasso do fim da era da natalidade em Portugal, o livri mostra essa "inveja do Brasil". 

Onde a mulher que o protagonista procura acaba sendo a mulher de um homem que fez fortuna no Brasil e que nasceu por lá. Já ela foi como que "vendida"  depois de sair do orfanato a um marido rico que a salvou. Aqui, o realismo retrata o homem brasileiro como bruto e anti romântico por natureza. Na série, o marido é interpretado por Paulo Betti e Maria Eduarda, a filha é interpretada por Ana Paula Arósio (de Hilda Furacão). 
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O modelo inglês em Os Maias: Eça era um anglófilo assumido (viveu anos na Inglaterra como diplomata em Newcastle e Bristol). Em Os Maias, o avô Afonso da Maia educa Carlos sob o método inglês — priorizando o exercício físico, o ar livre, a higiene, a liberdade racional e o banho frio em oposição à educação católica/francesa tradicional que destruiu o pai de Carlos (Pedro).


​A "feiura" ou retidão de Jane Eyre: Na literatura vitoriana (como em Jane Eyre), a austeridade, a falta de vaidade e a disciplina moral da mulher protestante/inglesa são vistas como virtudes elevadas, o triunfo do caráter e da alma sobre a carne.

 O que ele está brincando é que na vontade de procurar pelo melhor, pelo cosmopolita, o protagonista se perdeu no "multiculturalismo", pior, a loucura do autor sugere que o que achamos que é fora do lugar e especial pode ser um reflexo de própria conciência. Ele queria ver o mundo para não repetir a tragédia romântica do pai e vivenciou uma ainda pior. ​A inversão ibérica/latina: Eça dialoga com isso de forma ambivalente.

 Aqui, Brasil simboliza o selvagem indomável, o lucro, o sistema mundo, quase como os Estados Unidos para a Inglaterra já era nessa época do século XIX uma realidade. Essa brincadeira de uma extensiva dominação ás avessas do Brasil, que aparece no livro como o lugar que vem as novidades. 

Por um lado, ele admira a força e o pragmatismo da cultura inglesa. Por outro, na ótica da sociedade latina/portuguesa retratada no livro, essa mesma rigidez moral e religiosa (quando transposta para o catolicismo enclausurado de Teresinha) é percebida como esterilidade, falta de vida e afeição sufocada.
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O destino das "Terezas": O que acontece com elas? Existem lindas portuguesas, aqui cito como clássica trupe literária que eu adoro,  coisa ds "garota feia" ou "plain jane". 
​O que acontece com as "Terezas" da literatura e da sociedade da época é a condenação ao invisível e ao sacrifício silencioso.

Elas são obrigadas a viver em um conservadorismo de beatas sem cor, com luto fechado, roupa e vestidos longos e sem vaidade, enquanto os homens podem sair para curtir o cosmopolitismo e as espanholas. O julgamento seria que era culpa da igreja. 


​Enquanto os homens vivem suas paixões avassaladoras, seus delírios estéticos e suas tragédias românticas (como o incesto e a ruína da estirpe), a mulher "adequada" e conservadora permanece na periferia da história. Ela é guardada no altar da domesticidade, mantida "pura", mas desprovida de desejo e de agência. O sistema que promete protegê-la é o mesmo que dita que sua virtude depende do seu definhamento social.


​É fascinante notar como Eça constrói essa armadilha: a elite rejeita a "Tereza" por achá-la sem graça e fruto de um fechamento arcaico, mas ao buscar a luz, a sofisticação e o cosmopolitismo fora de casa (em Maria Eduarda), essa mesma elite tropeça no tabu definitivo e se destrói por completo. Essa ironia é insana e extremamente e estranhamente, nacionalista. 

 A Mãe da Maria Eduarda não queria cuidar dos filhos e abandonou o pau e o garoto e levou apenas a filha ao fugir com o amante príncipe italiano. Já a Maria Eduarda, diferente de sua mãe quer vigiar a filha de perto e não liga de cuidar de sua menina. 






Já escrevi sobre o comentário que Machado de Assis sobre literatura portuguesa. Ele também escreveu muito sobre Eça e esse carácter de simbolismo histórico e político de sua obra. Digamos, que ele reconhecia a genialidade da literatura mas apontava que o determinismo biológico presente nos textos europeus eram diferentes do estilo romântico e nacionalista aberto da nossa literatura nacional. 




Comentários

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