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Quem eram os Tupinambás: O povo que assustou os europeus

 


Mas nem todos na Europa aceitaram essa visão simplista e preconceituosa. Michel de Montaigne, um dos maiores filósofos franceses do século XVI, leu os mesmos relatos que inspiraram De Bry especialmente o livro de Jean de Léry  e escreveu, em 1580, o ensaio Dos Canibais, uma obra que revolucionou a forma de olhar para os povos distantes. Diferente do artista flamengo, que buscava impactar os europeus com sua visão de mundo. 


Adoro o Montaigne, desde muito antes, ele propôs uma reflexão crítica: e já comentamos aqui em uma matéria da forma como Montaigne interpretou o canibalismo de maneira diferente. 

Fico pensando se veio daí a mania do churrasco no Brasil. Mas essa imagem vem de um dos primeiros livros a retratar o Brasil na Europa. 


A mesma coisa vale para um livro chamado, "A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá (1952)" de Florestan Fernandes ressoa como uma crítica feroz ao modelo de "Tristes Trópicos (1955)" de Levi Strauss, ou qualquer devir na personalidade indígena. Por isso a genialidade do livro de Florestã, que ensina sobre as guerras tribais e que como os espartanos, os tupinambás estavam sempre prontos pra guerra. 


“Cada um chama de barbárie o que não é do seu uso; assim como, na verdade, não temos outro critério de verdade e de razão senão a opinião e o exemplo dos costumes e da terra onde vivemos.”


Os Tupinambás viveram e estão entre a visão dos viajantes e a realidade de um povo. A  Gravura de capa é de Theodore de Bry, Voyage au Brésil, de um livro da revista da Biblioteca Nacional. 

 

A imagem que abre esta matéria é uma das mais famosas e, ao mesmo tempo, controversas representações dos povos indígenas do Brasil no período colonial.  Essa gravura é do artista flamengo Theodore de Bry, publicada em 1592 na obra Voyage au Brésil. 


Nela, vemos uma cena que, durante séculos, foi apresentada como retrato fiel dos costumes dos Tupinambás, um dos grupos mais numerosos e influentes da costa brasileira no início da colonização. Mas para compreender essa gravura, é preciso ir além do que os olhos veem: ela revela tanto o olhar europeu quanto a complexidade de um povo que marcou a história do país.

 

Quem eram os Tupinambás?

 


Os Tupinambás faziam parte do grande tronco linguístico tupi, habitando uma extensa faixa litorânea que ia do atual Espírito Santo ao Maranhão. Eram agricultores, cultivadores de mandioca, milho e batata-doce, além de caçadores, pescadores e grandes artesãos. 





Organizavam-se em sociedades estruturadas em aldeias autônomas, lideradas por chefes e conselhos de anciãos, com rituais, mitos e uma rica vida comunitária. Além disso, suas táticas de guerra ficaram conhecidas, como flechas envenenadas, e usavam da mobilidade para fazer armadilhas. 

 


Eram conhecidos por sua coragem nas guerras, que tinham motivos não apenas territoriais, mas também simbólicos e rituais e formas de prática que ficou registrada nos relatos de viajantes, missionários e exploradores europeus, como os relatos de Jean de Léry e Hans Staden. 

Já os Tupinambás acreditavam no animismo (a fusão entre homem e natureza, o homem como animal), e em figuras de herois como de Tupan. 

Esses relatos serviram de base para a criação da gravura de De Bry, que nunca esteve no Brasil: ele produziu a cena com base em descrições escritas, filtradas pela cultura, pelos medos e pelos estereótipos da Europa do século XVI.

 

A gravura causa uma interpretação e exagero proposital, a imagem mostra uma cena de preparação e consumo de carne humana, inserida em um contexto de festa e ritual. Para os europeus da época, essa prática  que existia em contextos rituais específicos entre os Tupinambás  era vista como prova de “selvageria”, justificando a catequese e a dominação colonial. Mas estudos históricos e antropológicos modernos mostram que a gravura exagera, dramatiza e distorce a realidade e um deles foi Montaigne. 

 

O canibalismo ritual tupinambá não era uma prática cotidiana ou alimentar: estava ligado a rituais de vingança, honra e incorporação das qualidades do inimigo derrotado, com regras rigorosas e significados profundos dentro da cosmovisão indígena.

 De Bry, buscando atrair leitores e atender ao gosto europeu por histórias exóticas e chocantes, ampliou os detalhes, compôs a cena de forma teatral e omitiu os sentidos culturais que tornavam o ritual compreensível para o povo que o praticava. 

 

A própria presença de um homem branco de braços erguidos ao fundo reforça o olhar de “espanto” do viajante europeu, posicionando o observador como alguém fora da cena, superior e assustado  uma construção narrativa que serviu para moldar a imagem do indígena brasileiro ao longo de séculos.

 

 Essa sociedade que possuía uma riqueza cultural imensa: sua língua  que deu origem ao tupi antigo, base de inúmeras palavras e expressões do português brasileiro; seus saberes sobre a terra, as plantas e os ciclos naturais foram fundamentais para a sobrevivência dos primeiros. 

A cultura vive para além do estereótipo, mas a visão do "indio mau" serviu até pra afastar outros colonizadores. Se formos fixar apenas na cena retratada por De Bry é reduzir os Tupinambás a um único aspecto, é um pouco descontextualizado e distorcido, mas foi a imagem distorcida que ficou pra história como retrato desse povo.


Desmontando a tese do "pacifismo indígena" ditava que nessa sociedade, o homem virava homem através da guerra. Na sua loucura de romper com os modelos europeis, na disputa em definir "bom" ou "mau". 

Florestan inova na sua antropologia ao aproximar finalmente as culturas e indaga, seria algo universal do homem entrar em casa e construir sua sociedade em torbo disso, até hoje? É algo para pensar sobre o livro de Florestan e dos retratos imagéticos que invadiram a Europa para assustar ou animar. No caso, a guerra era uma forma e sistema da vingança da morte de parentes. 


Enfim, povoaram o imaginário europeu e eles pegaram vários ítens para expor em museus europeus. Incluindo o manto tupinambá. Outra tecnologia tupinambás são as redes pra dormir chamadas inbás. Urucum era usado na pintura corporal, Maracás eram o nome das flautas por eles usados. 


Não eram de jeito nenhum "nômades ignorantes", tinham engenharia defensiva, política de alianças, medicina vinda das hervas e ética ritual própria, quem eram comidos nos rituais eram sempre os inimigos, nunca ninguém da própria tribo. 





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