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Lisbela e o Prisioneiro (2003): O Cinema encontra o Circo em filme de Guel Arraes

O longa conta a história de Leléu, um malandro aventureiro e conquistador, que, fugindo de um matador traído em busca de vingança, conhece Lisbela, filha do delegado de uma pequena cidade em Pernambuco. Lisbela é romântica e cinéfila e adorava ver filmes norte-americanos e estava de casamento marcado. Elenco com Débora Falabella e Selton Mello. Filme do grande diretor Guel Arraes. Trata-se de uma adaptação do livro homônimo escrito por Osman Lins, escrito em 1964 (ano do golpe militar). 


A história se passa em Vitória de Santo Antão, no início do século XX no estado de Pernambuco. Inspirado em um livro de Osmar Lins com mesmo título, de 1964, escrito como peça de 3 atos. Um filme atemporal e que serviu para mostrar esse lado lírico da cultura nordestina, além de como Rosa Púrpura do Cairo, ser também uma carta aberta de amor ao cinema e sua estilística histórica e clássica. 

O elenco ainda conta com Virgínia Cavendish, Bruno Garcia, André Mattos, Tadeu Mello e Marco Nanini nos papéis principais. O filme tem um lirismo único, uma montagem que lembra o melhor do nosos cinema e televisão, além de ser uma adaptação de um livro de 1964. 

O pai da moça (Tenente Guedes) era delegado da cidade de Santo Antão, e queria que ela se casasse com seu prometido de tempos. Seu noivo que foi para o Rio de Janeiro e perdeu o "jeito de nordestino". Lisbela e o Prisioneiro é um filme de comédia romântica brasileiro de 2003, foi dirigido por Guel Arraes a partir de um roteiro escrito por ele, Pedro Cardoso e Jorge Furtado. 


Débora Falabella faz Lisbela, que fez Sinhá Moça e foi a protagonista de Avenida Brasil com a vingativa Nina. Mas aqui ela é uma clássica mocinha, mas completamente ciente do processo amoroso por já ter decorado do cinema. Já Leléu, é interpretado pelo grande Seltão Melo, de Auto da Compadecida, Ainda Estou Aqui e agora do remake de Anaconda. 

Sua personagem está de casamento marcado, mas se preocupa mais com as idas ao cinema, onde sempre há uma estória de mocinhos que viram monstros, Bela e a Fera. O trabalho de imitar o estilo de cinema das décadas de 1920 e 1930 é muito bom. 

Mostrando como o par do filme é famoso. Já a antiga namorada de Leleu é a atriz Virginia Cavendish, que já interpretou com Selton Melo em Os Normais (com a Fernanda Torres), onde ela era uma professora.


 Nesse filme, a personagem dela é a Inaura, esposa de um matador que jura matar o cabra que lhe roubou a esposa. Acontece que no meio do caminho, Leleu salva a vida de Frederico Evandro e ele passa a lhe dever um favor. 




Aí sem saber que era o marido da mulher que ele fugiu junto, ele pede pra matar o marido da mulher (e era o marido da mulher). Tudo porque Leleu salvou a vida do homem ao lhe defender de um touro bravo. Já o marido é o Marco Nanini, que está dando medo no papel. 




O caso da invenção do Nordeste: Um orientalismo brasileiro? 


Mapa do Nordeste, com Pernambuco bem no meio entre Ceará e Bahia.


Há uma crítica acadêmica e bem difundida que critica ao estilo de cinema de Guel Arraes na academia que servia pra inventar um nordeste como um caso de "orientalismo" brasileiro, no caso o orientalismo é um regionalismo. Mas o estudo tem uma falha de tradução. Digo orientalismo do Said no sentido de regionalismo, para o carioca, o nordestino é um estrangeiro. 


Quando o noivo da moça vai pro Rio de Janeiro, ele perde seu "jeito nordestino" ganhando um estilo "jovem guarda", chama ela de "broto", forma de dizer "garota" na gíria cosmopolita da época. 


A metáfora do filme é óbvia, a mocinha cinéfila de casamento marcado conhece Leléu, garoto que se perdeu ao ver um Zepellin quando novo,  desde então nunca mais parou de "correr atrás do que era bonito". Uma forma poética de dizer que ele cresceu nas ruas, de endereço a endereço. O cinema clássico encontra a arte das ruas e fazem um casamento. O final do filme é feliz e é super um filme para a família. 


Leléu representa a cultura popular regional, de rua, do circo, cigana em certo sentido. Já Lisbela é uma fã de cinema que conhecw da vida o que viu do cinema. Ela até abandona a Leleu com medo dele ser morto, sabendo que se ela foge com ele, ele podia ser preso ou morto. Mas por fim, ela acaba fugindo do casamento. 


A curiosidade extra é que o ator do noivo fez por anos o Leléu na peça de teatro da obra e perdeu o papel porque quem acabou fazendo o Leléu foi o Selton Melo. Ele ficou com o papel do noivo de Lisbela. 


Na Inglaterra, quando se estudava livros como "The making of the english working class" dão esse sentido de tradução. Quero dizer exatamente que "the making" se traduz como "a invenção" que dá um sentido no português de de ("the make up", the creation), nesse sentido.

 Sugerindo uma ideia de que seria uma mentira, uma impostura a reprodução mais aplumada e "sudestina" do material regional nordestino, uma crítica que também tem viés político. O que me impressiona é que apesar de adorar Vidas Secas, temos que observar que sim, há uma tentativa associar o Nordeste a miséria e a seca e certo também descaso de cobertura sobre o Nordeste. Você não vê esse lado Câmara Cascudo ou João Cabral de Melo Neto mencionado por aqui no Rio de Janeiro.

 

Quando você usa do soft power cultural pra minimizar e dar alguma representação para além da seca e da fome no Nordeste, você passa a ser acusado de inventar (criar) um Nordeste. O filme mostra esse lado "idade média tardia", da literatura, do amor ao cinema. 


A história se passa na época de 1940, já que Leléu viu na sua infância o famoso dirigível alemão Graf Zeppelin (LZ 127) passou pelo Brasil pela primeira vez em maio de 1930. Ele partiu da Alemanha no dia 18, fez uma escala em Recife no dia 22 de maio e seguiu para o Rio de Janeiro. No filme, é o Leppelin que Leléu persegue e é um dos pontos mais histórico do filme. 


Como se não tivesse essa cultura romântica, quixotista, barroca e viva, de libelos politicos, literatura de cordel, e claro, estórias de noivas em fuga, coisas que sempre associamos ao nordeste. Como a cena nesse filme onde ela foge do casamento tem como trilha sonora uma música da Clarice Falcão.  




Esse filme tem muitas curiosidades, ele simboliza muita a visão romântica dos brasileiros, com arquétipos regionais que só a gente vai entender. O Nordeste é um lugar especial do Brasil, onde os holandeses colonizaram antes de ser expulsos. Enfim, o nordeste é a imagem de Brasil que fica para muitos. 


Não é o Sudeste nem o Sul, é o Nordeste que carrega a alma do Brasil. Em 2003, um ano depois do penta, eleição de Lula pela primeira vez, o Brasil estava nacionalista e confiança que adaptou uma peça clássica do romantismo nordestino. O filme é tão comum e antigo que está disponível facilmente no Youtube. 


O roteiro desse filme é de uma fala tão cantada, quase ritmada mesmo. A música por Caetano, Você Não Me Ensinou a Te Esquecer tem um clip que faz referência a muitas cenas do filme. Filme lindo, e una poesia rara, mas engraçado sem ser piegas também. 













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