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Barry Lyndon (1975): O nascimento da etiqueta, o processo civilizador no século XVIII e o papel do indivíduo na História

 


Barry Lyndon é um filme de drama de época, de 1975, escrito e dirigido e produzido por Stanley Kubrick baseado no livro de 1844 "The Luck of Barry Lyndon" de William Makepeace Thackeray. Estrelando  Ryan O'Neal, Marisa Berenson, Patrick Magee, Leonard Rossiter, and Hardy Krüger. O filme conta a história de um irlandês do século XVIII que tenta fazer seu caminho dentro da sociedade de corte da época através de seu casamento com uma viúva rica, ambientado na Inglaterra, na Alemanha e na Irlanda durante a Guerra dos 7 anos (que foi travada entre a França e a Inglaterra). A fotografia do filme é sublime e inovadora e contou apenas com luzes naturais. As cenas filmadas inteiramente a luz de velas, e foram inspiradas nas pinturas de William Hogarth, um pintor inglês. Barry Lyndon ganhou 4 Oscars, Melhor trilha-sonora, Melhor Música Original, e Melhor Adaptação, Melhor Design, Melhor Direção de Arte, e Melhor Fotografia.


Disponível no Apple Tv e na HBO Max


Redmond Barry of Ballybarry era um irlandês, veio de uma família com baixo ranking dentro da sociedade de corte, mas ele tenta ser cavalheiro. Com a ajuda de sua mãe, ele aprende tudo que pode sobre os costumes à mesa e esgrima, mas falhava quando estudava latim. Ele tinha um comportamento passional, e tinha se apaixonado loucamente por sua prima Nora, que era uma solteirona. Nora tenta pagar as dívidas de sua família, enquanto o rapaz chama para um duelo entre ele e o Capitão inglês, John Quin, que se casou com sua prima (a moça que ele era apaixonado e por isso entrou no duelo contra o capitão inglês). Ele é levado a acreditar que matou o rival no duelo, apesar de sua arma não estar carregada de tiros de verdade. 



Dali ele foge para Dublin e perde dinheiro para alguns artistas enganadores que o assaltam. Ele se alista para guerra como um common private (soldado raso) do Exército Britânico no regimento de infantaria e parte para o serviço na guerra contra a Alemanha durante a Guerra dos sete anos, encontra uma camponesa que tem um marido longe na guerra e ela lhe oferece abrigo e afeto.




Uma vez fugido na Alemanha, ele ganha uma promoção, mas odeia o exército. Quando seu tenente é ferido,  Barry ajuda levando ele para uma vila local para tratamento. Ele finge que está maluco e se esconde com o uniforme do tenente. 



Ele convence a todos que ele é o real Tenente Fakenham. Ele segue em frente em território alemão neutro esperando sua sorte mudar. Sua má sorte continua, entretanto, ele se junta a um soldado prussiano, o alemão percebe que ele é desertor do exército britânico e decide não. Redmond (Barry) odeia o serviço prussiano tanto quanto ele odeia os britânicos. Os homens são vigiados para prevenir a deserção. Redmond marcha junto com o exército de Frederick na Batalha de Kunersdorf. 

 


Ele se torna o serviçal do Capitão Potzsordff e se envolve em intrigas e confusões, Barry tem como missão espionar um estranho, um homem mais velho, chamado Chevalier de Balibari (Ballybarry), aí ele percebe que na verdade, ele era o seu tio aventureiro que estava muitos anos desaparecido. O tio consegue ajudar ele a sair fugido da Prússia.  






Os dois homens irlandeses viajam pelo Europa enquanto jogam e gastam dinheiro no caminho. A família Barry vai parar em Rhineland Duchy, onde eles ganham uma grande quantidade de dinheiro. É aí que Redmond espertamente monta um plano de casar com uma jovem condessa. Depois a sorte fica contra ele, e ele não consegue disfarçar seu plano complexo. Olivia foi baseada na escandalosa condessa Augusta de Brunswick-Wolfenbüttel. 



Assim os Barry tiveram que sair da Alemanha sem se casar, depois eles se ambientam pela França e é lá que Redmond conhece a Condessa de Lyndon, uma mulher nobre, de uma riqueza sem tamanho que tinha se casado com um homem mais velho. Ele consegue seduzir a moça, mas o marido continua vivo mesmo com saúde ruim. Eventualmente, ela volta para a Inglaterra, o que deixa Redmond chateado. Depois de saber da morte do marido, Redmond consegue seduzir e se casar com a viúva que se casa com ele mesmo no seu luto. 





Depois do casamento, ele se muda para o Castelo de Hackton, que ele remodelou com grandes custos. Ele olha para seu benfeitores de infância na Irlanda, para seus primos Ulick, e mostra como que ele era o mais na moda do seu distrito. Enquanto a Guerra de Independência dos Estados Unidos rompe, e Barry Lyndon levanta recursos de uma empresa para mandar soldados para a América. Ele também derrota os primos da esposa no parlamento. Mas sua boa sorte muda novamente. Seu enteado, Lord Bullingdon, vai para a guerra americana e Barry é acusado de tentar matar o rapaz na guerra. 


Depois, seu próprio filho Bryan morre em um trágico acidente de cavalo. Tudo isso, junto com sua predisposição de gastar dinheiro livremente é o que traz a ruína para Barry. Enquanto a memória de Barry se esvaece e ele é separado de sua esposa e colocado na prisão Freet, ele é destinado a viver com luxo moderado, enquanto sua velha mãe vive por perto para visitá-lo. Ele passa o resto da sua vida na prisão e morre de causas relacionadas ao alcoolismo.   


Minha Crítica do filme


O Barry Lyndon que inspirou o filme é uma adaptação literária do livro "The Luck of Barry Lyndon", de 1844. (A Sorte de Barry Lyndon). O personagem do Barry Lyndon bem interessante como uma referência de modernidade. O fato do Kubrick ter trocado a adaptação da vida de Napoleão (um dos primeiros "selfmade man") por um romance picaresco (burlesco) autobiográfico fictício que tem como protagonista um personagem comum irlandês do século XVIII. 


A brincadeira com a narrativa histórica e com a forma como biografias são normalmente construídas, fica clara também na intenção do filme que não esquece de mostrar uma diferença irônica entre o que é retratado em palavras e a realidade da tema. O que lembra um pouco a fina ironia cómica instigada pela narração de grandes feitos, como o tipo de biografia que era encomendada pelos imperadores e reis e que geralmente era como se fosse uma encomenda patrocinada que fazia propaganda para essas famílias. O tom do filme casa com essa perspectiva da "bajulação", também tão comum na vida de sociedade de corte. 


A escolha é bem interessante por ressaltar uma forma de entendimento histórico revisionista, que foca nos aspectos sociológicos da história. O personagem poder ser qualquer um, já que seria uma daquelas bandeiras de que o "homem é fruto de seu tempo". 


Se Napoleão foi um general do recorte do século XIX e sua história está envolvida em torno de debates sobre o revisionismo que trouxe a política bonapartista para uma França que voltava aos poucos com os dispositivos monárquicos, o ponto culminante foi a coração de imperador de Napoleão, uma ironia suprema para um homem que combatia a "velha Europa" do século XVIII.  


Napoleão como Barry Lyndon, se casou com uma rica. Napoleão se casou com uma moça da mesma família de Maria Antonieta, e largou sua antiga esposa Josephine. Se a vida de Napoleão e da História da França mostra a capacidade de sempre poder entrar em pronta contradição é porque a sociedade moderna se desenvolveu em cima de sobrepujar os avanços da burguesia que questionava a nobreza, era como no chamado "despotismo esclarecido", o rei não podia ser mais rei e analfabeto (senão o seu súdito, qualquer um pode roubar sua coroa). 



O que começa na burguesia uma vontade de participar da monarquia, mais do que combater o antigo regime, a burguesia queria se anexar a ele. Os títulos de "baronete" de Elizabeth I na Inglaterra é um exemplo claro dessa "compra de títulos" para satisfazer os novos ricos que se davam bem na commonwealth. 


Essa é uma das histórias mais importantes do filme, alguém de baixo ranking monárquico, um homem irlandês (país praticamente colonizado durante muitos anos pelos ingleses) tenta melhorar de vida e no caminho, a própria história acontece com ele. Para entender a técnica narrativa de Kubrick ao substituir pelo Barry Lyndon é que ele está fazendo referência ao principal debate do revisionismo histórico, ele está usando micro história para abordar temas como a sociedade de corte, as estruturas de personalidade (que de muitos homens podem ser similares).  


A história do filme e do livro são de um homem nascido Redmond Barry, que era um irlandês que fugiu de sua terra depois de matar o homem em um duelo. Quando ele foge de casa, ele muda seu nome, se casa com uma viúva rica, ele trai e ele é mentiroso com as pessoas em sua volta. A novela foi publicada em dois volumes, entre 1852, e revisada em 1856. 


A guerra dos 7 anos (1756–1763) foi um conflito global, onde a Britânia (Inglaterra), junto com a Prússia, entrava em conflito com a França. Ou seja, como ele era um personagem irlandês, explica facilmente o motivo da deserção em relação ao exército inglês. O interessante é ressaltar através de Barry Lyndon a figura do soldado de elite, e ao mesmo tempo mercenário. 


Outro tópico do livro de Norbert Elias é a questão dos duelos, e como que os duelos marcam o fim do Antigo Regime e o advento da sociedade da lei que reprime esse tipo de costume. Uma exceção descrita no livro dele de maneira magistral é o caso alemão. Não apenas de unificação tardia, um dos motivos do nazismo ter conseguido escravizar a população alemã era que o a ideologia se via como monárquica, "da velha estirpe da Europa".



Se Barry Lyndon tenta a sorte na Alemanha é por lá ser o berço daqueles que as pessoas chamam de "berço azul". O conflito da guerra dos 7 anos retratava de maneira jocosa no filme era um conflito envolvendo a sucessão da Áustria em eminência de conflitos com a Prússia. 


As particularidades do exército austríaco são bem comentadas no filme, considerado "modelo"  aptidão e sucesso em batalhas, castigos físicos e disciplina severa   no universo das crônicas militares nacionalistas, mas Kubrick inverte a premissa, como em Full Methal Jacket (1987), o diretor brinca com a origem do orgulho dos militares de direita modernos,  que esses exércitos ultra nacionalistas apenas eram compostos por membros ou alemães ou mercenários que nada tinham a ver com o sentimento de nacionalismo monárquico austríaco, eram apenas interesseiros que queriam manter os privilégios da sociedade de corte. 


Os países disputavam fronteiras, como a Silesia, e a sucessão do trono por parte da Prússia. É dessa época que vem a distinção entre o homem inglês e o homem europeu (bem antes do brexit, diga-se de passagem).  O filme mostra bem a diferença entre os exércitos da época. O exército inglês é mostrado como um lutar de lutas de rua de boxe entre os soldados, falta de suprimentos e comida, ou seja, como aquela ideia de  que passar dificuldade fizesse parte de ser soldado, mas você ainda era livre. Já o exército prussiano era o exército que possuía apenas líderes nascidos na Prússia e a base era feita de ex condenados que ganharam permuta, como o próprio Barry Lyndon (que era considerado já desertor do exército inglês).





Apesar de ser publicado no século XIX, o filme e o livro são sobre o século XVIII, e por isso focam na questão do desenvolvimento da vida em corte, dentro do próprio recorte do surgimento da forma burocrática das instituições modernas. Em Pombal, havia a reforma, ala Michel Temer, do "funcionário" do rei Marques de Pombal, e com isso, a expulsão dos jesuítas das Américas. Era a época do rei George da Inglaterra. Chega um certo momento que Barry ganha medalhas de honra por sua coragem. 


Outro momento interessante do filme, é quando vemos os soldados morrendo na forma de combate militar antiga. Antes da invenção tática de Napoleão, a Europa guerreava apenas gastando vida humana. A posição das tropas era frontal, antes as guerras do século XX e a invenção da trincheira como forma de proteção. Nessa época, por conta da noção antiga de honra da morte, era uma forma de sentimento de nacionalismo sem que as nações existissem propriamente ditas.  Napoleão também inventou a utilização de tambores para animar e gerir a tropa como uma banda.  


A chamada "gentry" cresceu em poder, pois os cálculos econômicos dos economistas fisiocratas, como Quesnais se apoiavam na crença do valor do trabalho específico e do trabalho do lavrar da terra (agrícola) como o principal motor das "nações modernas". Quesnais por exemplo era um grande entusiastas dos estilo de planejamento semestral chinês. Essa classe foi a principal responsável pela mudança do comportamento das monarquias, se antes eles eram os nobres de menos sangue, eles passaram a ascender pela profissão e pelo casamento e a entrar na elite. Essa ideia de que a sociedade de corte era seleta e um pouco morna, já que existia sempre esse intercâmbio cultural vindo da necessidade de se manter o poder. 



Em muitos locais da Europa, o liberalismo monárquico foi aos poucos substituindo o poder antigo absoluto dos reis. O local que não fez isso, a França sofreu uma Revolução que não durou ao reformismo burguês que substituiu o poder das antigas casas europeias. A prova maior disso é a instituição do chamado código civil napoleônico, quando a burguesia finalmente substituiu os valores moralistas do código jurídico antigo que pendiam ao favor e ao exame pessoal na figura de intercessão por parte de figuras monárquicas, agora não tinha jeito. 


As guerras no século XVIII foram cruéis com os europeus  e dizimaram sua população. Se antes, as guerras eram travadas com espada e a honra, a severidade e a eminência da morte começaram a servir para a perda da ideia de "valores" "honra", ou outros motivos edênicos de redenção e crença na guerra, que estão vinculados ao nacionalismo, mas ainda não são de nações modernas propriamente ditas. 



O mundo europeu passava por uma intensa mudança, a sociedade medieval de classes e regimentos fechados viu ascender o poderio daqueles que "não tinham berço", os novos ricos, e progressivamente a elite antiga se endividou com a nova, como o caso típico da nobreza francesa, e a nobreza inglesa também. Outra questão possível de debate é o papel que os historiadores marxistas ortodoxos dão e dimensão dada a Revolução Francesa. Diferente deles, que analisam o processo de acumulação de reinvindicações coletivas, a análise de um Tocqueville, um Furet sobre o tema salvaguarda para a possibilidade cinismo e reviravolta nos ideais fundadores como os da Revolução Francesa. Para eles, a político posterior foi muito mais radical, cínica e revogatória de conquista. 


O bonapartismo francês e  nascimento dos novos indivíduos não gerou um processo democrático e realmente igualitário posterior. O legado da revolução francesa era pensado por Braudel como um processo integrante um processo anterior, mas ao mesmo tempo, um processo não acabado. As guerras europeias mostram e sua alta letalidade indicam esse processo de disputa não apenas de costumes hábitos, ideologias, como também disputa em torno do papel relegado do indivíduo na história. Apesar de ser uma estória fictícia no sentido literário e cinematográfico, a narrativa de Barry Lyndon encaixa com análises e estudos revisionistas em torno do processo do advento da sociedade moderna propriamente dita. Essas sociedades modernas e ocidentais desenvolveram seu poder em cima da disputa em torno de nomes, casamentos e também em cima de disputas financeiras e nacionais. 


O genial filme de Kubrick demonstra não apenas como é bobo ter deslumbramento com as famílias reais, mostra também como que qualquer um é passível de entrar nas nas graças ou no ódio dessas famílias dependendo da sua "fortuna", da sua sorte. Essa é a grande lição sobre Barry Lyndon, que foi utilizado como um recurso de substituição de um nome consagrada da história que é Napoleão Bonaparte. 


Uma forma de lembrar que o papel do indivíduo na história pode ir além de ser um nome famoso. As estruturas de personalidade não são individuais, são mais construções coletivas. Norbert Elias também escreveu um livro sobre Mozart (Retrato sobre um Gênio), onde ele faz como Kubrick fez em Barry Lyndon, ele faz do Mozart o retratado da sociedade de corte do século XVIII, e ele foi patrocinado pela rainha da Inglaterra da época que era a Rainha Charllote, aquela de origem portuguesa retratada em Bridgerton.  Ela era patrona das artes, como muitos monarcas foram também grandes entusiastas das artes, como em partes os Tudors também foram.  



Antes apenas eram usadas cornetas para marcar os momentos de alinhamento dos regimentos, a função até mesmo pastelona da chamada "banda militar". Aqui há uma reflexão profunda sobre evolução e história militar. Napoleão e sua forma "burguesa" de guerrear trouxe o fim da tática militar utilizada nas guerras europeias antigas, que era baseada no ranking, na espada, na autoridade do regimento, e no uso de armas de fogo. Napoleão inventou o tipo de guerra onde o soldado pode matar tentando não morrer, talvez uma das grandes piadas do filme seja demonstrar da maneira o mais historicamente correta possível como era ridícula a forma de guerra antiga. 



O mais incrível é que se pensarmos as armas de ultra destruição da tecnologia militar moderna é que existem armas que matam de maneira aleatória, são os mísseis de ultra alcance russo, são os drones americanos no Oriente Médio, esse tipo de capacidade de destruição vindo da "tecnologia moderna" mata muito mais do que o pau, a pedra, a espada e o conflito homem a homem possível em fronteiras. 


O que quero dizer é que evoluir na tecnologia para "matar melhor" é uma burrice programática não pensada a longo prazo, pois o dano ao outro também vem carregado do dano colateral de efeito de imagem produzida pelos indivíduos que banalizavam a vida humana. Essa reflexão do Kubrick é um acerto histórico sem tamanho, imaginar que na forma antiga da guerra, a vida humana não valia de nada, e de certa forma, com a tecnologia, estamos voltando ideologicamente ao lugar das guerras europeias antigas que dizimavam grande parte da população por conta da rixa entre as elites e casas reais diversas. 



Uma das principais questões além desse envolvimento da burguesia com a monarquia, o contrário é também verdade, a monarquia quer cada vez mais se dizer esclarecida, a construção de Versalhes, por exemplo, era uma forma de demonstrar essa superioridade da elite monárquica francesa para criar um oásis para fugir do povo e de suas reinvindicações. Nesse sentido, muitos reis e famílias reais começaram imitar a burguesia e a querer fazer contratos e relações para que as famílias reais não acabassem por falta de dinheiro da elite. Nesse ínterim, casamentos como o do filmes se tornaram comuns. Como também existia o ascender pelo casamento, também existia a possibilidade de miséria e relento, pois os privilegiados eram poucos. 


Também é dessa época o auge e progressivo fim da chamada "Europa antiga" com todos seus costumes de antigo regime. A questão do abrandamento das pulsões primitivas, o começo dos hábitos a mesa, tudo isso fez parte do que Norbert Elias chama de racionalização advinda da "vida na corte". A sociologia de Norbert Elias ficou durante muitos anos escondida, até que nos anos de 1970 ele foi redescoberto pelas universidades.



Elias ajudou a compreender a exegese do pensamento da sociedade dita como "civilizada" e seus hábitos e relaciona isso com os processos de unificação nacional, guerras transnacionais e hábitos de sentir e de pensar que passaram a estruturar a sociedade moderna. O filme ironiza o hábito das guerras na Europa do século XVIII, como a Guerra dos sete anos, por ser essencialmente um conflito entre as famílias reais em torno de sucessão. 









O segredo da teoria dele é ver que na obrigatoriedade da elite e da etiqueta, foi construída uma série de regras que até mesmo as pessoas de fora da elite precisam entender ou são excluídas, e isso diz mais um pouco também sobre o intercâmbio da burguesia financiadora mas sem nascimento, e a elite monárquica, cada vez mais neurótica de perder o poder, com medo de golpes (como no filme), e cada vez com menos poder e recursos financeiros.  


Norbert Elias tinha uma forma única de perceber os traços sociais, ou como Durkheim falava, as "formas de sentir e de pensar" e também as "estruturas de modalidade de personalidade" são a forma de se pensar e fazer um artigo científico, a base de qualquer monografia que se diga o mínimo científica moderna, isso veio da sociologia para toda a área das ciências humanas, para qualquer área da ciência humana, a prova disso? Toda monografia para se encaixar em algum clientelismo de área, se predispõe a ser sobre um tempo curtíssimo. Nem mesmo na história você vai achar um recorte de longa duração, é uma ciência moderna, com exceção da história global, da história cultural e micro-história, já a sociologia mantém seu esse de método na teoria social. 


Era intensa a competição por favores e prestígio e affaires diversos. Aqui estudamos a transição do poder pelo uso da espada como na Idade Média e com a questão da ordem cavalheiresca. A espada é substituída pela intriga, como em Macbeth, e logo a reputação dos reis e das famílias reais de toda Europa cai vertiginosamente. Na Inglaterra, Carlos II havia perdido a cabeça por não ter respeitado a propriedade e a religião dos protestantes, a Revolução Francesa apesar de seu "radicalismo de esquerda", ou por conta disso, fez voltar o mesmo regime monárquico, só que no século XIX, a França tentou imitar a Inglaterra e colocar uma monarquia constitucional, ao molde da Bélgica, Holanda e da própria Inglaterra, o resultado foi uma série de tumultos e rebeliões que culminaram no surgimento da terceira república francesas. 


Apenas lembrando de algumas loucuras populistas na história fundadora da Europa. Tudo era em nome de manter o poder das velhas potências da Europa antiga. O sucesso na sociedade de corte se dava agora pelo advento da palavra e da argúcia em geral. A bruta social cavalheiresca se transforma na figura do rei com luvas de pelica e distante do povo.                                                                                                

Produção e história por trás do filme





Kubrick fez o filme imaginando Napoleão.  Ele começou a fazer Barry Lyndon depois de entregar Laranja Mecânica. As filmagens começaram no oeste da Alemanha, como um filme inicialmente pensado para ser como uma adaptação da vida de Napoleão. Os interiores foram filmados em Londres. 


A produção foi problemática, teve problemas com o clima, e até mesmo a influência de fatores políticos. Enquanto técnicas de filmagens, houve a utilização de longas e duplas linhas de filmagem são marcados do filme e lembram, como Carrie de De Palma, e terminam com um zoom invertido. Kubrick tinha medo de ser um alvo do IRA (Exército Republicano Irlandês). Kubrick utiliza de toda sua técnica apurada para retratar a sociedade de corte, com isso, ele utiliza de uma estética de plasticidade realista para descrever essa sociedade de cortes. Os exteriores foram filmados na Irlanda, Inglaterra e no lado oeste da Alemanha. Exatamente para ambientar os locais das sociedades da "antiga Europa".



O livro The Luck of Barry Lyndon que foi inspiração fundamental na mudança de perfil que Kubrick, o livro foi considerado uma novela pitoresca, do escritor William Makepeace Thackeray, publicada em 1844, ela retrata na verdade, uma estória vinda do século XVIII, o período definitivo de construção da burocracia e da forma legislativa. Era uma publicação semanal na revista Fraser, era sobre um membro da chamada "gentry" (a nobreza rural) da Irlanda. Era inicialmente sobre um caçador chamado Andrew Robinson Stoney, e depois foi renomeada com o título "As Memórias de Barry Lyndon" onde o narrador é o próprio Barry, que quase sempre mente. 





Na primeira parte conhecemos o protagonista, Redmond Barry, um pedante jovem irlandês que se apaixona por sua prima a qual, no entanto, já está comprometida. Irritado, ele desafia o noivo para um duelo e lhe fere mortalmente. Como se tratava de um senhor bem relacionado, o que poderia lhe trazer represálias, Barry decide então abandonar a família e ir refugiar-se em Dublin. 


No caminho, é vítima de um assalto que o deixa sem qualquer quantia para sua subsistência. Precisando sobreviver, Barry ingressa no Exército Britânico. Depois de participar de algumas batalhas, deserta mas acaba capturado e recrutado pelo Exército da Prússia. Lá, ele se torna um espião à serviço do Capitão Potzdorf, escolhido para investigar as atividades de um certo Chevalier de Balibari. Barry - que a esse ponto já havia assumido diversas outras identidades - descobre que Chevalier também é um exilado. E, ao invés de espioná-lo, decide auxiliá-lo em suas atividades com a elite europeia. Conhecendo agora os meios da aristocracia, Redmond Barry se torna amante da adorável Senhora Lyndon, que está prestes a se tornar viúva. Quando isso acontece, eles se casam e Barry toma para si o sobrenome Lyndon. 




Aqui, o filme faz uma brusca pausa antes de seguir para a segunda metade, que mostrará o declínio social do irlandês. Já estabelecido na aristocracia, Barry Lyndon tem problemas com seu enteado, ao mesmo tempo em que tem seu próprio filho e cria dívidas insuportáveis. Ele traz sua mãe para gerir as contas da família, ao mesmo tempo em que trai a esposa constantemente e eleva o ódio do enteado, ao ponto que eles decidem travar um duelo. Barry Lyndon é ferido no duelo e passa a ser rejeitado por todos seus antigos amigos e, fadado ao oblívio, retira-se do seio familiar e cai no mundo em busca de aventuras, logo é assaltado e perde todos os bens.



Essa questão do abrandamento das pulsões vem do debate da escola dos "moralistas franceses", uma escola filosófica focada em enaltecer as virtudes do comportamento social em corte, que simula uma forma de "teatro das emoções", aqui não é o que se pensa, se quer ou o que se tem vontade, as pulsões nessa visão são destinadas ao controle  dos sentimentos em sociedade, as interações sociais seriam como jogos melancólicos de convivência, esses "jogos de xadrez", pensadas e jogadas com certa reflexão.

 


O filme é certeiro em observar o surgimento da "boa sociedade", do considerado "bom discurso", ou "bons modos a mesa", quando exigimos isso na forma da "boa educação", estamos apenas reformando a hegemonia ocidental da sociedade de corte e suas regras gerais e aprovação ou segregação. Era o fim da época dos "reis sujos", como era o fim da relação de adoração do súdito em relação ao rei. 





Na corte absolutista, formou-se pela primeira vez um tipo de sociabilidade baseada na dissimulação e nas "máscaras sociais" compostas para compor a chamada "boa sociedade", e mesmo com a tentativa de abrandamento das pulsões e da violência e a progressiva proibição dos duelos, as pessoas ainda exerciam pressão e poder sobre as outras, mesmo após o "fim" do antigo regime, que os historiadores marxistas pontuam dentro do aspecto da queda da Bastilha e da Revolução Francesa.  



A vida nesse meio não era tão pacífica como os códigos de etiqueta exigiam. Tanto é assim que a etiqueta é considerada pelos estudiosos como a "pequena ética", por ser demonstrada apenas em um sentimento de imitação de gestos e modos "apropriados". O legal desse filme  e do debate em torno da evolução e do comportamento em geral é refletir como a sociedade burguesa herdou sem perceber os costumes da antiga sociedade de corte por assimilação. 




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