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Macunaíma (1969): O Herói sem Caráter em uma Alegoria sobre a Ditadura Militar no Brasil



 Macunaíma é uma sátira literária sobre o heroísmo e representatividade na literatura brasileira, um clássico dos anos 1920 que buscava debater a identidade brasileira frente a modernidade. Nosso herói nasce nas matas que sai da floresta e vai para São Paulo, no caminho busca sua muiraquitã (amuleto da sorte) e ao se mudar para a cidade, vira ativo na luta armada. No filme de 1969, é adaptado pelo diretor Joaquim Pedro de Andrade, e com Grande Otelo, ator e comediante. 


Esse livro do Mário de Andrade de 1928 tem como título extenso: Macunaíma: O Herói sem nenhum Caráter. É dos principáis clássicos para entender o Brasil, nessa primeira fase do modernismo brasileiro, sobre um herói sem nenhum caráter que sai da floresta amazônica e vai para São Paulo em uma grande metáfora do fenômeno da urbanização no Brasil e na América Latina.  

Joaquim Pedro é um dos meus cineastas favoritos, gosto como ele tem uma visão centralizadora da sociedade. Aqui no blog fizemos dele Garrincha, um documentário ímpar sobre o gênio Garrincha, Alegria do Povo, e Os Inconfidentes sobre os primeiros revolucionários da Inconfidência mineira. Esse diretor tem uma pegada muito realista e faz sua crítica doa a quem doer. 

Como também aborda a questão das políticas de embranquecimento, que foram muito comuns na época como forma de ideologia. Se as populações nativas e feitas escravas eram o atraso, oe imigrantes trariam o progresso. Essa era a visão padrão ironizada na lenda de macunaína.  


O livro é da década de 1920 e foca na dificuldade de integração nacional entre o rural e o urbano. Já o filme atualiza a crítica pra ideologia do Brasil sob a égide da ditadura militar. Não que ele critique a luta armada, mas você vê uma mudança nos valores do cidadão brasileiro tornava a lyta armada inútil, quase como um suicídio. 


Um famoso livro da primeira fase do modernismo brasileiro. Narra as aventuras de Macunaíma,  que enfrenta depois o gigante Piaimã. O vilão está de posse de uma muiraquitã, um amuleto que o herói recebeu de Ci, a Mãe do Mato. 

Macunaíma gostava de brincar e fazer festa, sua mãe carregava o piá (garoto) a todo lugar como sua cruz, ela pegava pakova (banana) para alimentar ele e sentiam a chateação de todos os mosquitos, muriçocas, carapanã, maruim, e mberu (mosca). O livro tem a metade do seu vocabulário com nomes do tupi-guarani e podemos sentir isso na forma livre de uma prosa de uma epopeia nada heroíca. 


O vocabulário do livro é quase todo semiótico e indígena. Macunaíma depois de fazer traquinagem,se transforma em um lindo príncipe. A antropofagia e a antropomorfia fazem parte (como no folclore de tantas religiões no mundo), misturam as formas humanas com as formas animais. 

Se pararmos pra pensar nas próprias epopeias clássicas, elas nada tem de heroíno de maneira genuína, odisseia sobre Ulisses (odisseu) demonstra que ele ficou 20 anos traindo sua esposa. Mas a construção do mito narrativo de criação de uma identidade de um povo faz os olhos verem como heroíco, os feitos de homem comum de Ulisses.  


Ou seja, aqui há o debate sobre "a estética da resistência",  luta armada foi a escola do PCdoB frente ao PCB, que resolveram lutar contra a ditadura por um viés cultural e nativista.


 Essa divisão entre os dois partidos comunistas no Brasil demonstra muito sobre a diferença entre o perfil do militante. Hoje em dia, esses espaços mudaram muito e o PCdoB que era da luta armada faz parte d governo atual no Brasil e o PCB virou novamente "coisa de jovem", mesmo que na última eleição, até o PCB participou da chapa do Lula. 

Macunaíma além de típico brasileiro, enfrenta o gigante Piaimã, no filme isso representa o momento que ele passa a fazer parte da luta armada. Talvez a crítica mais fina e a todos que Joaquim Pedro de Andrade tenha nesse filme é sobre a "estética da violência", onde ao se aproximar da forma do seu inimigo, você acaba por fazer o jogo dele em algum nível. 



No momento em que Macunaíma tenta enfrentar Piaimã (o mau) com uma arma, ele acaba falhando miseravelmente só consegue vencer quando usa a sua capacidade de se transformar e se modificar, de se adaptar às circunstâncias diversas. Essa cena é uma clara mensagem: a força bruta não resolve nada o que importa é a inteligência e a capacidade de se conectar com a realidade do povo. 





 Se aos mais brancos eram dados melhores empregos e condições, rapidamente, o truque era "virar branco". Essa é a diferença do livro pro filme, no livro, a mudança de Macunaíma sentida como a mais livre das mudanças representava uma tendência histórica forte de definir quem era o "povo brasileiro" para além de uma representação idealizada. 




As estatisticas e a literatura buscavam corridas em torno do "herói nacional", o modernismo visava romper com as vanguardas europeias, contraditoriamente, em sintonia com as vanguardas europeias do surrealismo e do cubismo.

Não tão inocente como O Guarani e o Ubirajara, mas nem tão trágico como O Triste Fim de Policarpo Quaresma ou O Mulato, aqui a saga do nosso heroi é marcada pela falta de direitos e de lugares sociais. 


De forma que o protagonista sente que "tem que virar branco" para ascender na vida. Aqui a literatura moderna questiona que o índio pensado por José de Alencar era um indio "bonzinho demais", comvertido e cristão, e Macunaíma corrige isso com certo realismo que é até muito questionado. 


Os modernistas paulistas eram ousados e trouxeram uma crítica dupla do nativismo, ele não é uma forma, é um princípio em si, por isso aquilo do "Tupi or not tupi", era a pergunta sobre ser nativista ou não. 


As referências indígenas no texto são mais que referências, todo o texto é uma tentativa de descrição de como o tupi é a língua extra oficial do Brasil. As referências indígenas em Macunaíma, livro de Mário de Andrade, vêm principalmente de mitos dos povos originários do norte do Brasil e da Venezuela, recolhidos por pesquisadores alemães. 


Parte que ele se encontra com o Curupira é importante no II capítulo do livro. 



O famoso encontro entre Macunaíma e o Curupira ocorre no Capítulo II ("Maioridade") da obra Macunaíma: O Herói sem Nenhum Caráter de Mário de Andrade, quando o protagonista, após perder a mãe e vagar pela mata, encontra a entidade assando carne com seu cão. A entidade oferece sua própria perna ao curupira (uma referência so canabalismo tupinambá). 


Além da forte presença linguística indigenista real, tem também uma forte influência da semiótica no texto de Macunaíma. Macunaíma é uma epopeia que não mente os feitos do herói, mas constroi sua consciência coletiva literária em cima dos erros e suas desventuras, sem medo de demonstrar a falta de carácter e a malandragem.


 Fala não de um fatalismo pela escolha, mas que a escolha é em si ambiente e criação. Ele não é um heroi predestinado como Ulisses, Hércules ou Aquiles. Macunaíma é o retrado do Brasil que não entende o Brasil e da transição dura ocorrida dos campos e florestas para as cidades com a urbanização. As políticas de imigração davam respaldo a imigração branca em toda a América latina e por isso mesmo que 

 O autor usou essas histórias tradicionais para criar uma identidade mista para o povo brasileiro. Um livro que registra esses povos é o "Fontes e Origens dos Mitos" de Theodor Koch-Grünberg: O etnólogo alemão registrou lendas sobre o herói mítico "Makunaimî" no livro "De Roraima ao Orinoco (o rio que corta a Venezuela) ", principal fonte de Mário de Andrade para escrever seu livro. 

Os povos em questão são Taurepang, Arekuna e Macuxi: As narrativas originais pertencem à cosmogonia desses povos da região do Monte Roraima, onde o herói é visto como uma divindade criadora e protetora, no Rio Uraricuera: O personagem de Mário de Andrade nasce nas margens deste rio real, localizado em Roraima.


Outra referência, o talismã da sorte de Macunaíma, o Muiraquitã: O talismã de verde jade que o herói perde e tenta recuperar ao longo de toda a história, é um artefato místico ligado às lendas das Amazonas. Também o personagem de Ci, a Mãe do Ouro, é quem oferece o amuleto ao heroi: Personagem inspirada em mitos de Matriarcas e divindades das florestas e da terra. Quando ela vai embora, gera outro trauma em Macunaíma. Em busca do seu amuleto perdido, ele e os irmãos vão até a cidade atrás de piaimã e do amuleto muiraquitã.






Agora uma reflexão sobre revolução e momento hostórico. Eu lembro de um autor que escreveu "Porque é inútil revoltar-se" e não era um artigo refletindo a incapacidade de uma revolta dar lugar a uma revolução que altera o governo.

 

Digamos que a revolução pode acontecer por qualquer motivo, mas ela não vira governo ou política imediatamente significa uma forma de jornada quase religiosa que acontece quando muitos reprovam uma política pública

Fala muito sobre um projeto de país, de como nos percebemos, de como nos imaginamos e de quem somos.  Os protestos nas democracracias modernas são mais para verificar os grupos que ficam se fora ou que sentem-se usados pelo sistema como massa de manobra. Mostram também a capacidade de projeção de alguma população ou grupo que se sente excluído das formas de governo desse ou daquele país. 


 Após 1930, ninguém no Brasil queria mais defender uma ideia de "elite branca a branca" e parte do clima pós revolução de 1930, a conquista de direitos trabalhistas e a publicação de autores como Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Caio Prado Junior. O mostro piaimã simnolizava no livro o monstro capitalista oriundo da elite paulista. 


 Esses autores tiveram muito a ver com esse processo de constituição de uma novs identodade nacional, Freyre observou a influência indígena e africana na cultura brasileira, Sergio Buarque levantou as raízes da cultura ibérica e Caio Prado foi o primeiro a ter uma análise materialista sobre o Brasil. 

Macunaíma como herdeiro dos modernistas de São Paulo busca perder o idealismo e nisso há a crítica de uma visão preconceotuosa, quando Macunaíma se juntou a luta armada faz isso como parte de uma "moda" de postura, a crítica não é que a luta armada ou o protesto não muda nada, a crítica é em tese hegeliana, e acabamos por alimentar aquilo que nos antagoniza.  Enquanto as sociedades mantém suas castas no poder, com uma estética que se modifica e abraça o capitalismo identitário.


 O ideal é uma forma de tornar as pautas de reivindicação do momento em agendas seja incorporado como exigências do futuro de certos grupos que se sentem excluídos do poder. Nesse contexto, o protesto confirma e questiona o poder do governo imposto da maioria silenciosa que o apoia. 


Em 1970, o Brasil viveu o tri campeonato mundial em meio a uma ditadura militar, dstávamos felizes e tristes ao mesmo tempo enquanto nação na época do Médici. Nessa época, quem protestava ou participava de organizações estudantis podia ser preso, torturado e morto e ter seus corpos nunca encontrados. 


O movimento social tem uma estética de cultura fã e pode se perder nisso senão voltar na centralidade das pautas coletivas. Ou seja, revoluções são feitas por pessoas e que podem mudar governos e suas políticas públicas, mas esse processo não é necessariamente identitário e individualista. 


Enquanto há a estética e a visibilidade há também exigências secretas de um movimento social obter certo upgrade: que ele não tenha líder, que seja "orgânico", que tenha pautas gerais e pensadas aos mais pobres, e que não seja violento.


 Não é o que eu acho pessoalmente, mas é o que a sociedade social democrata sempre cobra de eventos populares. Ao exemplo do heroi macunaíma, ele é guerreiro, medroso e oportunista ao mesmo tempo. 





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