Grande Sertão: Veredas (1956) – A obra-prima de Guimarães Rosa que mostra que o Local pode ser Universal
É a obra-prima absoluta da nossa literatura contemporânea, tem força, identidade e regionalismo contando de um Brasil quase desconhecido para todos. Guimarães Rosa inovou muito, não usou o português padrão, “para viver e escrever, um léxico só não basta”, transformou a prosa nordestina em língua universal. “O sertão é do tamanho do mundo”. E o mundo é do tamanho que era Guimarães Rosa e sua obra.
Um autor muito querido que sabia interpretar um Brasil para muito além das capitais. Guimarãea Rosa trouxe a fonética e prosa nordestinas para simbolizar o Brasil. Retratando o fim da era do canganço e o começo da industrialização do Brasil mostrando em seu livros os últimos rincões que a civilização não atingia.
Muito lido na Alemanha e respeitado, podia entrar e sair de lá mesmo na época do nazismo, muitos hoje conhecem Guimarães Rosa pela atuação da sua esposa na retirada de judeus da Alemanha usando o nome do marido que tinha passaporte diplomático por ser lido por lá. Por isso que ela ficou conhecida como "O anjo de Hamburgo".
Aqui no blog, eu fiz de uma adaptação cinematográfica de um livro dele também muito bom, "A Hora e a Vez de Augusto Matraga", outra pedrada do escritor que escrevia sobre os rincões de Brasil, ticava com a caneta aquilo que todos apenas ignoravam.
Outro clássico muito louvado dele é o livro "Sagarana", uma palavra composta, "saga" tem a ideia de mitos germânicos, já "rana" Sagarana é uma palavra composta. "Saga" vem ao mesmo tempo, dos mitos germânicos, já "rana" é um sufixo tupi-guarani. Quer dizer semelhante, algo que é parecido com aquilo.
A história do livro não é apenaz de um jagunço mal, é um tipo duplo, mal definido. Não é só história de jagunço, não é regionalismo. O sertão é a vida, o destino, o Brasil, o ser humano. É sobre nós mesmos, nossas escolhas, nosso país.
Segundo nosso crítico Antonio Cândido, autor de História e Literatura e tantos outros livros e ensaios, disse que Guimarães Rosa fez o inédito, conseguiu criar algo que não imitava nada, apenas registrava diferentes dialetos e vivência através do léxico.
Quem é o protagonista? Riobaldo não é um homem nem bom e nem mau, não faz exatamente o mal e nem o bem. Ele representa um pouco esse modelo do "tudo e mais um pouco", ele é ora violento, ora bom, ora tem que obedecer, ora escolher.
Riobaldo Conhece então Diadorim: um amigo e guerreiro corajoso, descobre depois que seu amigo era mulher disfarçada de homem para lutar na canganço (uma forma de cultural de banditismo local).
No livro, a figura de maior inimigo é Hermógenes (seu inimigo mortal). Riobaldo acredita que fez pacto com o diabo para vencer, ser forte e ter poder. Nisso, ele se pergunta se teria sido sua vida escolha ou destino? No fim, Diadorim morre em batalha e ele entende que ela era uma mulher. Um final bem trágico e épico demonstrando esse contexto histórico da época.
Nos anos 1950 o Brasil começava uma industrialização acelerada, com cidades crescendo. Era a época dos "50 anos em 5". O interior do sertão se tornava o último refúgio onde o Estado não chegava. Um lugar de disputa entre fazendeiros, fagunços, exército e polícia.
Diadorim representa muito a mulher no Brasil. Envolve uma certa análise de que a brutalidade fazia daquele espaço do sertão, um lugar impossível para uma mulher andar sozihha e por isso Diadorim se veste de homem. Era a única forma de entrar no bando.
Já em termos de crença e religião, o livro reflete sobre o sincretismo religioso, mistura do catolicismo com mandinga, crenças do interior. No Brasil, o diabo seria a forma de nossa própria dúvida moral. O diabo seria não uma figura sobrenatural, seria o homem em si, face a ideia de que já era perigoso viver em si.
O que mais quero falar desse livro é a linguagem. A literatura dele causa frisson ao focar em traduzir a beleza da prosa local, uma linguagem universal. Desde o título, Veredas são caminhos, trilhas estreitas no meio dos cursos das águas, perdidas no meio do mato.
Como se fosse a versão brasileira para a ideia de "oásis". Simbolizam a ideia de sorte e escolhas que tomamos na vida. Quão bom ou mau nós somos. Qual caminho escolhemos, ficar ou ir a luta. As veredas são os caminhos que tomamos na vida.
Se Euclides da Cunha levantou o sertanejo como mazela social contra a república, um homem, mas sem cultura, Guimarães Rosa não, elepegou o modelo desse homem comum nordestino e transformou ele no questionamento moral geral de quem era a figura do bandido ou do herói e de como essas fronteiras são construídas.
Houveram algumas adaptações sim, uma clássica miniserie da Globo de 1985 com Bruna Lombardi no papel Diadorim, e teve uma adaptação livre feita recentemente pelo Guel Arraes.



Comentários
Postar um comentário