Livro publicado em 1899, o romance que acompanha a vida de Bento Santiago, conhecido como Bentinho, o "dom casmurro" ou em tradução mais simples "Mister Grumpy" "o senhor rabugento", que narra sua própria história já na maturidade. Bentinho relembra da sua juventude no Rio de Janeiro, do seminário de padres que abandonou, especialmente seu amor por Capitu, que viria a ser sua esposa. Esse paradigma feminino ficou para a história, como o primeiro livro que visa ser contra a toxidade do comportamento masculino abertamente.
E aí, você acha que a Capitu traiu? A resposta desde o início é que esse livro possui um testemunho nada confiável, de narrador-participante. É um drama épico, mas ainda sim, há um humor escondido se você souber analisar o texto por inteiro. Capitu teria nas palavras de Bentinho olhos de cigana oblíqua e dissimulada, olhos de ressaca que entraram pro imaginário da literatura.
Eu fiz muitos e muitos textos do Machado de Assis, o que mais gostei de fazer, foi o de Esaú e Jacó e onda Missa do Galo, e sinto que tenho que fazer, porque são obras sem muito acompanhamento e são geniais.
Mas aqui, Dom Casmurro fora da lista do The Guardian, mostra que os jornalistas desse jornal não estão sendo muito justos com a história. Também escrevi aqui sobre uma adaptação bem livre da obra feita recentemente pelo Julio Bressane.
Recentemente, vi e escrevi de "Capitu e o Capítulo", que debate além do texto, as próprias alegorias do salão da elite, mas penso que alguns livros como esse merecem um texto separado, porque são muitos detalhes de texto mesmo que são eloquentes.
Aqui tem uma cópia do livro traduzido pra inglês, esta no internet archives. Para quem não é brasileiro e tenha interesse, esse é o segundo maior livro de Machado de Assis na opinião internacional.
Mas é verdade sim que quem lê mais Machado são os americanos. Quantas vezes em um filme de Woody Allen uma referência a Machado aparece? Diversas vezes e ele mesmo disse que soube de Machado através de Susan Sontag.
Um dos maiores romances, mais obscuros, mais psicológicos, que tange, classe, raça e crítica direta ao universo da Casa Grande brasileira. O tema da dúvida, que tão facilmente vem na mente da primeira e da última leitura sobre esse livro.
A mentalidade brasileira, acostumada com A Moreninha e o morno e romântico romantismo se debruça agora no realismo machadiano. Machado se pergunta no realismo dele, e o que acontece com o cara rico e branco uma vez que encontra amor nos braços de uma moça de 14 anos inicialmente, de origem mista e mais pobre?A resposta é que a sociedade aprovaria o romance, mas questionaria o "depois" do casal.
É o mesmo cenário de juventude tecido em A Moreninha, mas Dom Casmurro se apresenta como um romance da decadência do romance. Para além das óbvias perguntas, se ela traiu, ou se o filho era dele? Todo o livro é um mistério que saiu de uma mente de uma frieza absurda, suas lágrimas? De crocodilo manipulador.
Qual é o maior tema do livro? Claro, a legitimidade, o amor conjugal e a confiança quebrada. Mas no tribunal da história poucos red pill teriam coragem de apontar o dedo para a querida Capitu?
No aniversário da obra, em 1999, realizaram uma sessão simbólica no STF (na nossa suprema corte), onde haveria finalmente, o julgamento de Capitu. Na defesa, havia até atuação do historiador Boris Fausto. O veredito? Capitu inocente, Bentinho marido abusivo, culpado pela sua própria tristeza e miséria.
A personagem mais falada de toda nossa literatura. O problema é que tudo que sabemos dela vem da boca do homem que escreve medianamente sobre seus defeitos e vícios de humor.
Capitu era viva mesmo no meio da pintura cinza e Bentinho enlouqueceu progressivamente ao observar sua esposa era capaz de melhor performar do que ele. Ele pensou, se ela é capaz de mentir fácil e se livrar agora por mim no romantismo, agora aqui no presente, onde ela já é minha esposa, claro que óbvio que ela vai continuar mentindo, porque ela é capaz (no sentido de capacidade) mesmo.
A figura fantasmagórica da dúvida. O maior enigma da pirâmide machadiana. O mau humorado Bentinho, o Mister Senhor Grumpy, escreve para "unir as duas pontas da vida". Vamos pular tudo do livro em anarquia e entender finalmente quem foi Capitu, sobre o que realmente o livro é, e como isso e o que tem no livro de história factual, de que fantasmas ele falava?
Todos se perguntam, quem foi Capitu? O maior mistério de todos. Eu não queria entrar nessa "fofoca histórica", mas é preciso citar a fonte da fofoca para até poder negar. O sempre sabia da esposa de Alencar era que o pai dele era um médico, aventureiro muito fã de ferrovias e que havia nascido na Índia, apesar de ter os pais escocêses.
A primeira fonte dessa especulação veio do médico Dr. Afonso Mac-Dowell, de que sim, a esposa do autor de O Guarani, o também grande José de Alencar, podia ser Georgina ser a tão famosa Capitu? Machado não teve filhos, mas foi sempre próximo ao filho do casal, Mário de Alencar e participou de sua campanha para a Academia Brasileira de Letras (como o primeiro caso de "clientelismo" da casa).
Humberto de Campos relatou, em crônica, em 1930, repleta de insinuações veladas (ou nem tanto, uma vez que deu as iniciais J. de A. como as do suposto marido traído), que recebeu a informação “bombástica” do seu médico, o Dr. Afonso Mac-Dowell, que lhe revelou que também que Mário de Alencar podia ser seu filho biológico, podendo se tratar do diplomata e do escritor que foram apadrinhados por ele após a morte de José de Alencar e que o rumor apontava como muito parecidos. Outra coisa sobre a esposa de Alencar é sobre ela ter ajudado a fundar o Instituto de Homeopatia do Rio de Janeiro.
Teria Machado diferente do que todos nós pensamos dele (que ele um escritor que pouco se colocava diretamente nos trabalhos) escrito de si mesmo um pouco nisso, vale pensar se esse triângulo amoroso teve alguma verdade na vida real. Acredito que o louvor do texto, além da primorosa escrita, vem em parte desse eco e ruído de "vida real" que Machado coloria seus personagens.
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| Seriam parecidos? Machado jovem e Mário de Alencar. |
Na verdade quanto a que este seria, na verdade, filho de Machado de Assis, apesar de não ter tido filhos oficialmente e de ter escrito na forma de outro personagem "não tive filhos, não transmiti o legado da nossa miséria" . Não que eu acredite nessa fofoca, mas é válido citar algo que os clubes de literatura falam depois da aula. Mas é o tipo de polêmica literária que havia no século XIX. Talvez a maior fofoca e enigma da literatura brasileira.
O paradigma psicológico de Capitu é fascinante, mas preciso logo e sem ordem aqui falar do final desse livro, Ezequial, o filho do fatídico casal vira arqueologo orientalista, faz faculdade fora, embarca em aventuras pelas pirâmides e morre e é enterrado em Jerusalem depois de morrer com uma febre tifóide.
No fim do livro Bentinho reflete nonque escreveu na lápide do seu filho:
" Tu eras perfeito nos teus caminhos, desde o dia da tua criação", mas aí seu pensamento intrusivo o trai e ele reflete sua eterna dúvida,
"Quando seria o dia da sua criação, Ezequiel?"
Na última página, vemos que ele não superou Capitu, nem com outras mulheres porque para ele, nenhuma delas teria aqueles "olhos de resaca" que Capitu possuia.
O provérbio aqui é bonito e reflete a psicologia machadiana:
"Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar te com a malícia que aprender de ti".
Aí por fim a comicidade dos épicos e banais finais machadianos mais uma vez. Ele lamenta que seu melhor amigo e sua querida e amada esposa tenham lhe enganado juntos (ele tem certeza disso), e diz imediatamente "vamos escrever agora a história dos subúrbios", assim do nada.
No enterro de Escobar, ocorrido em 1871, no época do Gabinete de Riobranco, ele compara a situação de Ilíada de Homero onde Príamo é obrigado a beijar a mão de Aquiles, o guerreiro que havia matado seu filho.
A verdade é que Capitu foi exposta e abandonada em frente da sociedade, foi acusada de traição e por isso que ela foi morar fora. Ela morre lá fora e depois o filho morre também. Todos em volta de Bentinho morrem e ele vive amargurado, mas mão muito.
O homem branco, rico e privilegiado padrão. Ou como gosto de ler (parecido com Frankestein), o retrado do problema do casamento e da convivência. Se Bentinho é como o jovem apaixonado de A Moreninha, vale refletir algo poderoso, o que acontece depois finais felizes românticos?
Machado pensou isso atravéa do registro secundária da cabeça de um personagem privilegiado, cuja família possuia "escravos de ganho", e retratada alguém que foi infeliz por conta de seu próprio frágil psicológico. Como também é reflete de uma profunda crítica realista a elite da época. A figura da dúvida na relação humana romântica, dimensão da reputação social ser separada da esfera dos sentimentos reais.
Vale lembrar que na juventude, era o próprio Bentinho que contava segredos de Capitu para Escobar e irritava assim a Capitu que não era amiga dele. Ou seja, ele começou a aproximação dos dois. Explica-se isso porque Bentinho queria ser padre e foi o amor de Capitu que o fez mudar de ideia.
Eu aprofundaria e diria que era Escobar que Bentinho realmente amava, por conta do jeito apaixonado com que ele descrevia Escobar.
Mas vocês já indagaram quem foi Bentinho? O título indaga isso desde já, o cabeçudo, obstinado, teimoso. Nós mesmos somos convidados enquanto leitores a julgar segundo a lógica de Bentinho, somos reduzidos a sua mentalidade pequena, de autor de pequenas e precisas ideias, cujo a ambição nem é tema de debate.
Em termos de identificação, não é como se colocássemos Capitu no pedestal de santa, eu me identifico zero com Capitu, mas ela produz uma defesa de frente ampla sim. O que lembramos de evidência é a retórica e a memória de Bentinho, que buscou escrever sobre seus fracassos, ele ficou eternizado na mitologia do fracasso pessoal, que ele não consegue ver mais nada além disso.
Dom Casmurro não é um livro que surge da certeza de concordar. É o livro que surge da dúvida, da quebra da inocência, no ressoar da maturidade do autor que já havia escrito uma bomba Memórias Póstumas de Brás Cubas muitos anos antes. Era o amadurecimento cruel mas realista do escritor que foi sem dúvida, o maior brasileiro de todos os tempos.
A história é muitas vezes escrita por quem tem o poder, e a verdade, infelizmente, muitas vezes morre com quem foi expulso dela, não pode nem se defender de nada. Essa é a crueldade de Bentinho. Os detalhes do exílio e da frieza é o que produz em espírito a morte de tudo que havia antes ter dado errado. O erro na literatura do Machado é fruto do homem e não da mulher.


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