Machado de Assis, nascido em 1839, o maior escritor brasileiro e criador da ABL (Academia Brasileira de Letras), cresceu no Morro do Livramento, na zona portuária, era filho de uma imigrante dos açores que era lavadeira e de um pintor, filho por sua vez de escravos libertos em vida. Ele escreveu crônicas, laudos, peças de teatro, poesias e romances marcantes. Se tornando o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Mas quais seriam suas fases? E qual repercussão sua obra teve? Nacional e internacional?
Machado de Assis tinha um pai negro (mestiço) e uma mãe branca e imigrante. Isso influenciou em uma forma de ascensão social que ao mesmo tempo era muito ciente de si, mas que sabia surpreender até o mais ferrenho de seus críticos, que na ausência de vontades viciadas e explicações fáceis, assistia a ascensão do interesse do mundo na obra do homem que tinha a "cor local" e esse tema ainda é tabu para muitos.
Machado de Assis é analisado em duas fases apenas em livros didáticos e ensino médio, o debate nos artigos acadêmicos são mais específicos e insinuam uma terceira fase do autor. O que propõe aqui é adicionar uma análise de sua terceira fase, já no século XX. É algo que não é feito na maioria dos estudos acadêmicos.
Além de Susan Sontag, o crítico literário americano Harold Bloom comentou sobre Machado chamando-o de "maior escritor negro" que já existiu.
Apesar de concordar que Machado de Assis foi em sua maior parte do tempo um escritor do "universal" como todo bom escritor, ele foi o mais nacionalista de todos. Muitos acreditam que Lima Barreto escreveu O Triste Fim de Policarpo Quaresma inspirado além de si mesmo, na figura do maior exemplo de nacional de todos, Machado de Assis.
Meu argumento é que em sua terceira fase (no fim de sua vida), Machado de Assis quis como em Inocência e O Guarani, entender o todo do Brasil e os problemas do campo da política. Algo menos eminente nas suas obras majs populares e críticas, como Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Machado e os artigos sobre ele
Machado foi descoberto recentemente por uma onda internacional, devido a traduções e recentes e admiradores como Susan Sontag e Woody Allen. Novos influenciadores descobriram Machado e fizeram vídeos e resenhas sobre ele.
É um tema coberto por resenhas em inglês, se quiserem olhar o Youtube, tem várias resenhas e críticas da obra de Machado.
Duas matérias do New Yorker, uma delas:
"Rediscovering One of the Wittiest Books Ever Written", "He’s One of Brazil’s Greatest Writers. Why Isn’t Machado de Assis More Widely Read?", uma matéria de 4 anos atrás do The Guardian: The Posthumous Memoirs of Brás Cubas by Joaquim Maria Machado de Assis – review" de John Self.
Uma matéria do New York Times sobre Dom Casmurro que indaga sobre a possível traição de Capitu: "Did She Cheat? A Century Later, a Novel’s Mystery Still Stumps."
Uma outra do Los Angeles Review of Books surfando na publicação em inglês de 2018 e usando uma frase do livro dele "O grande defeito desse livro é você, leitor": "The Greatest Defect of This Book Is You, Reader”: On Two Translations of Machado de Assis’s “The Posthumous Memoirs of Brás Cubas”.
Outra matéria na tradicional revista The New Republic chamando Machado de "um sadístico mestre contador de estórias", "A Sadistic Master Storyteller".
Outra resenha é de Ratik Asokan no Yale Review comentou o pós vida na obra do novelista brasileiro que tem seu carácter político ignorado: "Machado de Assis’s Afterlives, The Brazilian novelist’s overlooked politics".
As três fases e faces de Machado de Assis
Tive essa ideia de fazer um levantamento da repercussão do autor ao ver um artigo acadêmico que apontava a mesma coisa sobre uma esquecida terceira fase do mestre, uma escondida terceira fase, mal lida e interpretada, mais simbológica e mais profundamente romântica (apesar do tom trágico).
Uma fase de mudança, ele não era mais o escritor neutro e moderado, já tinha desenvolvido toda uma teoria da elite contestada em sua obra. O século XX trouxe um Machado no final de sua vida e ele não ficou mais cínico, ficou mais aberto e menos cômico. Aderindo a um tom nacionalista, nunca tentara explicar o Brasil, mas em Esaú e Jacó, já havia essa intenção de pano de fundo.
Que a segunda fase de Machado ele teria sido quase um militante, jogou a elite pela janela com Brás Cubas e Dom Casmurro.
Eu adiciono essa terceira parte por perceber uma revisão ainda maior que os clássicos Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Bras Cubas, são seus dois livros mais traduzidos lá fora.
Os críticos de Machado eram racistas em seus ataques. Aluísio de Azevedo escreveu "O Mulato" muitos dizem ele estava tentando criticar Machado de Assis. Machado, por sua vez, escreveu em resposta Memórias Póstumas de Brás Cubas. Dois livros muito diferentes entre si.
Ou seja, se o outro criticava a cor de sua pele e o "fatalismo" da sua falta de aceitação na sociedade, Machado se vingou ao escrever sobre o fatalismo na vida dos homens da elite e ao dizer que talvez não ter filhos fosse bom pra não se transmitir a miséria, uma ótima forma de contradizer a tese "crime e castigo" sobre conquista e raça.
O castigo de Aluísio foi ver a obra de Machado ser cada ver mais reconhecido enquanto ele era embaixador do Brasil e pôde ver isso de perto.
Mas preciso diferenciar a ironia e o estranhamento com os protagonistas de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, para o tom íntimo, simbólico e respeito de Esaú e Jacó, como um romance sobre o próprio Brasil, como em Inocência.
Machado viveu feliz até a mãe falecer, seu pai não queria mas se casou de novo e teve uma filha que não sobreviveu, mas a sua madrasta atuou muito em ajudar Machado. Ele havia conseguido assistir aulas de francês junto a classe apenas com meninas e depois aprendeu francês na padaria da Madame Guillot.
Depois aprendeu mais trabalhando. Escreveu pela primeira vez no "Jornal dos Pobres" quando tinha apenas 15 anos. Começando a trabalhar como revisor e tipógrafo.
O primeiro Machado foi aquele aue escreveu Crisálidas (1864) e Falenas (1870), aqui ele está bem nacionalista, jovem e romântico, utilizando-se da moda do parnasianismo. Apostando na criação do nacional. Seria a época das "tabuletas da juventude", ou seja, de atitude panfletária e de crença.
Depois da Guerra do Paraguai, o nacionalismo morreu e Machado, por sua vez se casou Carolina Augusta Xavier Novais, como se o mais original e debochado dos brasileiros tivesse conquistado o coração de uma herdeira de uma importante família das letras de Portugal.
É nessa mesma época que inspirado de Charles Dickers e publica as crônicas "Miss Dollar" e "A Mulher de Preto" no livro "Contos Fluminenses", de 1870, já montando um estilo rápido e muito bem humorado de interpretar a cultura cosmopolita carioca.
É em Miss Dollar que Machado disserta sobre beleza feminina ao redor do mundo e faz isso como? Comparando os tipos nacionais com tipos de cachorros. É muito engraçado, vale a pena ler. É nesse conto que Machado conta a realidade de como conheceu sua esposa, miss dollar, a viúva rica e séria.
Talvez existe uma terceira fase, do escritor já bem mais velho, sentindo o início so século XX e o advendo da república em 1889, o ano da morte de Flora, a única heroína romântica de Machado, junto com Helena. Outro conto incrível é Histórias da Meia-Noite (1873): com estórias como "O Relógio".
Ele conheceu ela por seu irmão (que ficou doente e aí ele veio de Portugal pra cuidar dele), eles publicavam juntos, ele aprendeu tudo do mundo literário, que ajudou o irmão de sua futura esposa a publicar, depois quando se casou. Daí escreveu seus primeiros romances
Escreveu romances típicos nacionais Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874) , que leu em Sherlock Holmes um modelo de revolução dentro da ordem, como a mão que encaixa na luva (comodidade do amor).
Já em Helena (1876) havia o debate sobre o papel da mulher na sociedade, as escolas do casamento, em Helena, o tema de legitimidade e da hipocrisia das elites. O último dessa primeira fase e Ia Ia Garcia (1879).
Ia Ia é em si uma expressão que remonta ao Brasil colonial. As formas de tratamento na Casa Grande. O romance reflete em parte a Guerra do Paraguai, quando o homem que Estela amava vai pra guerra para esquecer sua rejeição, ela se casa com um viúvo que tem uma filha que é atendida todas as suas vontades.
O casal só fica junto no final e é bem dramático o amadurecimento. Aqui ele estrutura muito bem a figura do agregado, do casamento por conveniência. Essas figuras de autoridade e hierarquia também são vistas na estrutura de Dom Casmurro (um romance que desconfia da desconfiança).
Segunda fase:
É de um realismo bruto, irônico e crítico, quase militante.
Machado passou a publicar romances em tom médio mas nacionalista, até que Memórias Póstumas de Brás Cubas se elabora uma resposta de capricho a histeria europeia e ao eterno cópia e cola. Memórias Póstumas de Bras Cubas (1881) inaugurou um realismo absurdo.
É um livro tão diferente. Tão marcante pelas suas frases únicas. É aqui que Machado decide escrever para ser lido e abandona certo formalismo demodê que fazia porque publicava em folhetins e resolveu aderir a um tom mais anárquico. Isso aconteceu quando Machado passou a ler os ingleses.
Acontece que se casar marcou Machado. Ele aprendeu melhor inglês com sua esposa que lia muitos romances ingleses e falava com fluência. Os dois eram muito cultos e trocavam notas sobre o que liam e pensavam e gostavam de cachorros, como em Miss Dollar.
Quando ele entrou nessa terceira fase?
No século XIX, se fosse pra perguntar para Sílvio Romero ou para a critica especializada, ou para o gosto geral do senso comum, da elite e da época, quem seria o melhor dos escritores brasileiros, a grande maioria diria José de Alencar,o autor do romance O Guarani (1857), incluindo o próprio Machado de Assis.
Machado passou por uma grande mudança com o advento do século XX, seu tom pessimista perde a ironia e ganha contornos de previsão dos fatos. Machado passa a não apenas registrar sua época, mas passa a falar sobre "cousas futuras" como fez no primeiro capítulo de Esaú e Jacó.
Se Machado era o herdeiro dos louros da literatura depois, quem tinha sido o pioneiro, o pai da literatura nacional com uma escrita pesada, tinha sido Alencar. Os dois eram meio que amigos e rivais ao mesmo tempo.
Mas o tempo passou e a novela escrita por Machado já parecia coisa de cinema, já havia o movimento do não observável comumente por todos. Isso mudou e hoje em dia, todos chamam Machado de Assis do maior escritor Brasileiro.
Machado caia muito em tons medianos. Mas isso porque ele não queria o sinismo nacional oco ao estilo de Richard Wagner. É válida a comparação porque Machado era além de tudo, campeão de xadrez, e estudioso de música. Gostava das artes como um todo.
Machado acumulou esperiência como funcionário público, quase um político atuante e muito divulgador dessa ideia da "ilustração" no Brasil. Quem publicava Machado era a Editora dos irmãos Garnier. Em 1905 já havia tradução no La Nacíon
É nessa questionadora fase de Machado que ele rompe mesmo com a obrigação de bom moço e desconstroi o protagonismos dos cínicos herois de livros. Ele como cronista evolui e escreve Papéis Avulsos em 1882): com obras como "O Alienista" e "O Espelho".
O Alienista é inspirado em Jonathan Swift e conta a história de um sério médico de saúde mental, que de tão normal e metódico fica louco por achar que todos a sua volta estavam loucos. Um livro que brilha ao questionar a ideia de histeria feminina e autoridade vinda de cargo. Recentemente, teve até uma série inglesa inspirada no livro.
Aqui já é um Machado de Assis na fase final de sua vida e maestrando o simbolismo e o fino drama de sua escrita, desaparecendo quase todo humor de sua fase de adulto. De certa maneira, o final da vida reproduz um espírito muito mais nacionalista, quase como uma vonta ao passado.
Machado evolui como cronista e escreve Histórias sem Data (1884): Incluindo a obra "A Cartomante". Em Várias Histórias (1896): Coletânea de alta maturidade, com "A Missa do Galo" e "Uns Braços".
A Missa do Galo como um conto que ridiculariza o machismo de um marido adultero e questiona mais uma vez o poder do ponto de vista em uma estória. Outra coisa desse conto que é engraçada é a descrição da esposa (católica), fria e distante, para a amante protestante, que o protagonista reflete no fim que também era fria por mais que fosse amante.
Ele construiu um espaço no realismo que não ridiculariza o pobre, a mulher, o índio, o negro. Um livro que ironiza o comportamento da elite e que indaga sobre os valores da sociedade brasileira e suas hipocrisias.
Um que começa no fim, no velório do homem, daí o narrador conta suas desgraças e o que o matou, abrir a janela enquanto pensava na sua grande ideia e legado para a posteridade, o "emblasto Brás Cubas", a solução para o legado atemporal, o bálsamo que curaria qualquer tristeza. Machado aqui está ao ponto de neologismos. Não brinca em dizer o que quer e ser original.
Citando uma das mais irônicas frases dele, essa sobre o protagonista se apaixonar pela prostituta. Ele ironiza isso, tão diferente de Paulo em Lucíola, no livro de José de Alencar.
"Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos."
Outra frase marcante desse livro que serve de resposta aos críticos do fatalismo do sangue e do DNA:
"Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria."
A sua fase realista vai de Quincas Borba (1891), até Dom Casmurro (1899), onde há ironia fina sobre o eterno espírito de cópia e autoridade. A brincadeira com o professor Quincas Borbas e sua filosofia de cachorro é sensacional. Em Dom Casmurro Machado ridizulariza já o "red pill" com o questionamento do narrador Bentinho (o senhor zangado na boa captura do texto na sua tradução ao inglês).
Repercussão internacional e traduções de sua obra:
No início do século XX, pouco depois de morrer, a editora que publicava ele no Rio de Janeiro passou a promover suas obras primeiro para espanhol e francês.
Em 1952, William Grossman traduz Machado de Assis para o inglês com Memórias Póstumas de Brás Cubas, (Epitaph of a Small Winner), abrindo o mercado anglofônico para suas obras.
Em 1963, já há interesse acadêmico e burburinho, quando Grossman lança a tradução de O Alienista (The Psychiatrist and Other Stories). Em 1990, Susan Sontag escreve um prefácia em uma nova edição de Epitaph of a Small Winner, impulsionando uma nova onda de estudos nos Estados Unidos da obra de Machado.
Nos anos 2010-2020 esse interesse aumentou, já Flora Thomson-DeVeaux acerta em publicar uma nova tradução com até o título mais fiel ao original, traduzindo mais uma vez Memórias Póstumas de Brás Cubas (The Posthumous Memoirs of Brás Cubas).
Além de todos os tik tokers, análises e interesse alto pelo autor na internet, é só procurar o nome de Machado de Assis no google notícias e achar um mar de resenhas sobre ele. É impressionante como ele soava moderno, e como parecis um viajanre do tempo de tanto que ele inspirava.
Se era acusado de nem na sua fase romântica ser muito romântico, ele puxou o extremo romantismo em Esaú e Jacó, e jogou de volta em um auto questionamento ao estilo de Memórias Póstumas em Memorial de Aires. Aqui ele realmente se coloca como "Aires" e se critica como alguém que tem memórias que quer esquecer ou apagar.
Machado nunca descreveu virgens perdidas e idealizadas, ao estilo "Escrava Isaura", mas em Esaú e Jacó ele quebrou a regra e escrevey sobre Flora, mas mesmo donzela, não era sem graça, era inexplicável nas palavras de Aires.
O romance é simbólico e perde o humor machadiano e se reflete sobre o drama do Brasil, a transição para a república, que isso não significava exatamente "esquerda". Machado usa isso colocando Flora como representante do povo brasileiro, preso entre debates ideológicos de políticos que são "filhos da mesma mãe".
Já na sua terceira fase ele nos contempla com um lado inspirador e simbólico, na fase final de sua vida. É de um aprofundamento de sua escrita e da forma como se escreve um romance, sem esquecer de ser sempre pano e fundo para a história factual da época.
Já em Relíquias de Casa Velha (1906): Sua última coletânea em vida. Aqui há uma homenagem a sua esposa falecida
Esaú e Jacó (1904) Memorial de Aires (1909) mostram Machado totalmente maduro em sua escrita e já ciente de seu papel social como escritor.
Temos aqui um Machado de Assis maduro, consciente e cheio de lembranças da sua juventude. Refletindo sobre além do fim de sua vida, no fim da monarquia no Brasil.
As obras esquecidas de Machado:
Um conto gay chamado "Pílades e Orestes (1996)", que abordava a história das origens do casamento civil no Brasil republicano, sobre um casal de amigos em Friburgo.
Outro desconhecido é um conto chamado "Pai contra a mãe (1906)" (father against mother). Na história, o caçador de escravos para sustentar sua família ajuda a capturar uma escrava grávida em fuga.
Normalmente acusado de ser moderado ou concordância pela postura militante do "pagode" como diria Taunay sobre Luiz Gama em crítica entre amigos, Machado não era nem militante e nem muito menos moderado, sua atuação no ministério da agricultura era voz contra quem estava violando as novas leis abolicionistas. Ele ajudava dando corpo jurídico real e apoiando as reclamações dos escravizados.
Toda essa experiência e amor ao país foi refletido em sua experiência tanto burocrática quanto de escritor. Suas resenhas, traduções, peças de teatro, crônicas políticas, quando defendeu o voto feminino sem demagogia. Tudo isso fez de Machado de Assis o maior brasileiro de todos os tempos. Homem insuperável. O mundo inteiro lê e revisa. Temos na sua obra mistérios vivos e esperando para ser descobertos.





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