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O Guarani (1857): O Indigenismo de José de Alencar na Construção do Mito Nacional

 

Peri e Ceci - pintura de Horácio Hora, 1882. 


O Guarani, de José de Alencar. No interior do Rio de Janeiro do século XVII, em uma região de mata fechada, habita uma jovem brasileira de pai estrangeiro que morava em um casarão isolado perto da Serra dos Órgãos, moravam em uma sesmaia concedida pelo Mem de Sá (primeiro governador do Rio de Janeiro). Ceci morava com o pai e a irmã em meio a uma briga de tribos indígenas, ela gostava de Álvaro de Sá (um português) e ia se casar com ele, quando sua casa ficou cercada de possíveis invasores, Ceci conhece Peri, um leal goitacá que passa a jurar proteger sua vida em meio a guerra. Os Goitacás (ou Goytacazes) disputavam no território em volta da fortaleza rural junto aos Aimorés (os temidos Botocudos). 


José de Alencar (já falamos dele aqui e fizemos de Ubirajara dele), ele foi um importante escritor cearense, neto de Bárbara de Alencar (uma da líderes da Revolução Pernambucana), foi ele mesmo contraditório ao ser senador pelo Partido Conservador. Ou seja, era menos revolucionário que sua própria avó e família, apesar de também perseguido na Corte. 

Além de explicar o Brasil com esse romance fundador, ele faz de novo, quando escreve "Iracema (1865)", faz pensando no mesmo "projeto nacional".  Alencar escrevia como ninguém (ninguém escreveu em forma melhor que ele), mas não há muitas traduções de sua obra, nenhuma ao inglês e algumas em italiano e espanhol. É difícil de traduzir, é novelão e paisagismo em uma sintonia fílmica, isso dentro de um romance. 

Mas sua obra não era nem um pouco conservadora, apesar dele ter sido senador pelo Partido Conservador. É aquela história, vale mais 10 conservadores cearenses a 10 liberais progressistas no Rio de Janeiro. 


 Surfava no indigenismo. Para mim, quando comecei a ler ele nem sabia disso tudo, apenas amava Alencar na infância e adolescência mais que a Machado. É a força do romantismo, captura os corações e mentes dos jovens, mas tudo que ele escrevia falava muito para minha versão adolescente, e Machado para mim soava vulgar demais , essa boa escrita trabalhada em detalhes, amante das paisagens é a sensação de ler José de Alencar, afinal, ele escreveu no estilo nacional bruto e de guerra nas trincheiras do regionalismo também.


Seus trabalhos desconhecidos são muito bons também, como "As Minas de Prata (1865): Ambientado na Bahia do século XVII. Outro muito bom é "A Guerra dos Mascates (1873)": Retrata o conflito ocorrido em Pernambuco (1710–1711) entre os senhores de engenho de Olinda e os comerciantes (mascates) de Recife. 


Livros como O Gaúcho (1870): Retrata a vida no Rio Grande do Sul., já O Tronco do Ipê (1871): é ambientado no interior do Rio de Janeiro e Til (1872): é situado no interior de São Paulo. O livro O Sertanejo (1876) por sua vez é focado no sertão cearense, considerado uma de suas obras mais importantes por retratar a sua propria terra. 


 Não apenas escreveu uma antologia romântica nacional, ou foi o rei do regionalismo histórico, também como fez em O Guarani, como escreveu os "Perfis de Mulheres', com (Lúcia (Lucíola), Aurélia (Senhora) e Mila (Diva). Alencar foi muito diverso em seu estilo novelístico e centrado na questãodos casamentos e aparências no Rio de Janeiro. 

 Alencar tinha como avó, ninguém menos que Bárbara de Alencar. Essa mulher abaixo foi uma das maiores lutadoras contra a monarquia no Brasil. 


A avó de José de Alencar, nascida no Crato, Ceará, uma espécie de heroína local que é desconhecida no Rio de Janeiro. 


José de Alencar, considerado o pai da literatura brasileira

A história em José de Alencar e o mito fundador americano como todo. 


A comparação que possamos faze rcom James Fenimore Cooper, autor de O Último dos Moicanos é no mínimo justa, pois retrata os correspondentes aos botocudos nos Estados Unidos, os indígenas apoiadores da França, os Hurões (Wyandot) durante a guerra dos Sete Anos (Franco-Indígena) na América do Norte. 

 Como o "Walter Scott" brasileiro, ele escreveu em um tom épico sobre o nacional, escreveu O Guarani e depois escreveu Iracema. Sempre tentando explicar a sua escolha pelo higienismo. 

A paisagem em Alencar é o romance em si. Mestre do nacional e do simbólico, escreveu O Guarani para elevar a literatura ao carácter heroíco americano. Ele escreve uma versão braisileira do mito fundador presente também em romances e na cultura americana. 

Além disso, vale lembrar que O Guarani foi inspirado nos feitos do Índio Arariboia, o fundador de Niterói. Inspirado a famosa ópera de Carlos Gomes também. 


O Il Guarany (1870): Estreou no Teatro alla Scala de Milão, consagrou o compositor internacionalmente. Sua opera inspirada no livro se tornou um sucesso na Europa. 

 Sua abertura é o tema da "A Voz do Brasil", uma faixa de horário de notícias no rádio obrigatório desde os anos 1930. 


Capa da primeira edição, de 1857. 


Houve um debate entre Bartolomé de las Casas e Juan Ginés de Sepúlveda. Esse confronto ficou conhecido como a Debate de Valladolid (1550–1551).


Os indígenas americanos são plenamente humanos, com razão e direitos, ou são “inferiores por natureza” e, portanto, passíveis de dominação?  Sepulveda defendia a escravidão natural em oposição a La Casas, que passa a defender um proto mito do "bom selvagem". Um dos primeiros grandes debates sobre natureza humana.

Peri seria esse "bom selvagem" e que se converte ao cristianismo. No livro, os inimigos de Peri são aqueles que atentam contra Ceci. Gerando problema até na sua tribo de origem.


O livro e a história de Peri e Ceci


A história gira em torno da família do fidalgo português Dom Antônio de Mariz, instalada em um casarão isolado, cercado por tensões com grupos indígenas e ameaças de invasores e aventureiros em geral.

Nesse cenário surge Peri, um indígena goitacá leal e habilidoso, cuja devoção à jovem Ceci (Cecília) com 18 anos na época, era filha de Dom Antônio, homem de mais puro sangue português e bem fiel a coroa portuguesa. Sua casa (hospedaria) era uma pequena comunidade que recebia todos os estrangeiros da região. 

A casa tinha uma fortificação gigantesca com uma escada no meio, metade feita pela mão do homem, outra metade pela natureza em si.

Ceci tem um quase namorado ideal, chamado ironicamente de Álvaro (nobre português), e no início do livro chega a gostar dele. Sua irmã era apaixonada por ele e ignorada. Sua irmã que por sua vez, é filha do seu pai com outra mulher, sendo criada por perto, ela quer Álvaro, que só tem olhos para Cecília. 


O Guarani de 1996 (dirigido por Norma Bengell). Gloria Pires interpreta a irmã de Ceci, Isabel (filha de uma índia), que acaba ficando por um tempo com Álvaro. Na cena, Ceci lhe passa as joias da família.


Quando Peri encontra Ceci é salva pela primeira vez por ela, ela está desmaiada e ele a leva em segurança para casa. É assim que oa doia se conhecem pela primeira vez. 

Com tantos conflitos, internos (na comunidade), e externos, entre as tribos, Peri acaba salvando Ceci o tempo todo e ela está sempre desmaiada e frágil. Mas ao mesmo tempo, ela que comanda o que Peri vai fazer. Ele que parece ser submisso a ele em vários momentos. Exatamente por sua "inocência". 

A casa de Ceci é cercaca por índios da tribo Aimoré e é aí que surge um ex-frade italiano, a quem deseja raptar Ceci, por não vê-la com os olhos de inocência e amor que Peri via Ceci. 


A ambientação combina natureza exuberante, conflito colonial e perigo constante, preparando o terreno para confrontos entre europeus, indígenas e aventureiros. 


Ceci era filha de um dos portugueses fundadores do Rio de Janeiro. Em 1567, o pai dela havia acompanhado Men de Sá (primeiro governador do Rio de Janeiro). Depois da vitória, auxiliou nos desígnos da colonização portuguesa. Depois novamente em 1578 na expedição de Antônio de Salema contra os franceses em Cabo Frio que estavam traficando Pau Brasil. 



O Guarani, de José de Alencar, começa como um romance histórico marcado por tensões coloniais e por uma visão hierarquizada dos povos indígenas. Sobretudo nas primeiras páginas, em que tribos são retratadas de forma estereotipada e em conflito constante. Nesse cenário, o contraste entre o “índio idealizado” e o “índio inimigo” estrutura a narrativa. Além dessa disputa das tribos, ainda havia o personagem do italiano que via Ceci com olhos maldosos, diferente de Peri, sempre tão casto.


 Peri surge como exceção nobre, enquanto outros grupos são associados à ameaça, inclusive no plano do sequestro de Ceci, o que falha ao Peri a salvar. É interessante ver uma coragem ética de Ceci por mais que ela seja tão sensível e donzela no sentido clássico.


 Ela também quer proteger Peri de sua adoração cega por ela. Ceci também admirava Peri e antes conhecer ele, ela sonha com ele. É tudo muito sensorial. A irmã vem acordá-la, maz não há resultado. Ela termina chamando ela de "preguiçosa". 


A trama se desenvolve no interior do Rio de Janeiro colonial, onde a casa de Dom Antônio de Mariz funciona como um ponto de resistência cercado por perigos, tanto de aventureiros quanto de grupos indígenas hostis. Entre esses conflitos, destaca-se a tentativa de rapto de Ceci por um “índio vilanizado”, esse momento de "tropo" entre a versão maldosa e a versão inocente, o que reforça a lógica de oposição entre civilização e barbárie típica do romantismo indianista. 


Peri e Álvaro chegam a se unir pra salvar Ceci, mas Álvaro é morto e a irmã não resiste e atenta contra a própria vida. Outro personagem é o irmão de Ceci que ao matar uma índia da tribo Aimoré em uma caçada gerou uma guerra com uma tribo que era aliada até então. 


 O final do romance é mais uma vez contraditório. O pai de Ceci perde o projeto colonizatório, Ceci e Peri terminam juntos em uma canoa, enquanto ela mais uma vez, apenas dormia. Para acalmar Ceci na tempestade, ele conta pra ela a lenda de Tamandaré, um de seus antepassados, que para escapar de um dilúvio, subiu no alto de uma palmeira, com ajuda de Tupã e sobreviveu com sua esposa e repovoou a terra após as águas baixarem. 


"E o índio ergueu os olhos com uma expressão inefável de reconhecimento.


Falou com um tom solene:


“Foi longe, bem longe dos tempos de agora. As águas caíram, e começaram a cobrir toda a terra. Os homens subiram ao alto dos montes; um só ficou na várzea com sua esposa.


Era Tamandaré; forte entre os fortes; sabia mais que todos. O Senhor falava-lhe de noite; e de dia ele ensinava aos filhos da tribo o que aprendia do céu. "


No plano afetivo, o livro faz um pulo, o início é racista e raso, e o romance vai consertando os personagens, diferentemente da maioria dos romances, os peesonagens vão provando seu valor. O próprio Antônio, pai de Ceci, apesar de rusgas na relação a administração, Antônio queria manter-se português, mesmo em território estrangeiro. 


Ceci,  que era antes inicialmente ligada a Álvaro o modelo de cavaleiro português , passa gradualmente a reconhecer em Peri uma figura de devoção absoluta, quase mítica de amizade incondicional. Aí ela troca de namorado, por assim dizer. 



O sentimento dela não é imediato nem plenamente consciente; ele se constrói como algo velado, idealizado, que ultrapassa o amor convencional e entra no campo do simbólico.


A relação entre Ceci e Peri funciona como alegoria: ela representa a pureza europeia, quase angelical; ele, a natureza americana elevada à nobreza. José de Alencar tenta fazer a versão brasileira de "O Último dos Moicanos". 


O vínculo entre os dois é casto, não é sexual, é infantil, intenso e sacrificial — mais espiritual do que físico, forma-se uma ligação muito forte entre Ceci e Peri. E Peri faz tudo que Ceci quer e planeja sem ponderar dar a vida pela sua amiga se precisar, embora ela nunca peça isso dele. 

 No fim, Peri e Ceci fogem juntos, mas não antes de Peri virar um homem cristão. Tornando todo o livro um pouco conservador.

 Diferentemente de Iracema, onde há o sacrifício da mulher indígen que é integrada ao mundo do homem branco, ela deixa um bebê, Moacir, mas morre. Já em O Guarani, o carácter épico termina com uma anulação, desaparecimento, é romântico, mas não continua ou explica. 


Peri conta par Ceci de uma lenda indígen sobre um grande dilúvio, em que apenas alguns sobreviveram no alto na copa das árvores. Essa enchente quase mata os dois, e ele salva Ceci transformando uma árvore em barco e carregando ela para longe nessa canoa. Esse é o fim do livro. 


Assim, o livro sai de um começo duro e marcado por visões hoje problemáticas e até racistas e evolui para uma narrativa grandiosa, onde amor, lealdade e sacrifício reconfiguram completamente o tom da obra. José de Alencar mostra bem o "lado ruim da colonização", como os colonizadores ou aventureiros poderiam acabar ficando no meio de conflitos tribais mais antigos.


O Guarani teve várias versões adaptadas, as primeiras dos anos de 1920 que foram perdidaa e a mais famosa das adaptações é a de 1996 da diretora e antiga atriz do cinema nova Norma Bengell. 











Foto do cartaz da ópera de Carlos Gomes que encantou o mundo. 


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