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Era uma casa portuguesa, com certeza? — A história da criação do português brasileiro

 


O nosso português brasileiro se formou a partir de múltiplas influências, primeiro o português arcaico (o português trazido pelos colonizadores) e aos poucos,  foi transformado pelo contato com línguas indígenas, sobretudo do tronco Tupi-Guarani (que nomearam grande parte do nosso território), e pelas línguas africanas trazidas por povos escravizados, principalmente dos grupos iorubá e banto, que marcaram a forma de falar do brasileiro, a sonoridade e expressões culturais. 


Já nos séculos XIX e XX, o Brasil passava por sua independência, e parte desse processo incluiu a formação de uma literatura nacional mais autônoma e orgulhosa, junto com a chegada de italianos, alemães, espanhóis, árabes e japoneses, que também deixaram traços no vocabulário e nos usos da língua. O Brasil foi forjado em tradições diversas. Tupi or not tupi? That is the question? 

 

O meu nome é Tupy (Guaicuru)

Meu nome é Peri (De Ceci)

Sou neto de Caramuru

Sou Galdino, Juruna e Raoni

                    (Lenine, Jack Soul Brasileiro)


As diferenças regionais da fala e o uso linguístico prático

Existe uma língua da teoria e existe uma língua na prática. O tupi antigo foi mais usado no Brasil Colonial do que o próprio português. 

Se pegarmos o exemplo do russo Mikhail Bakhtin, ele defendia que a linguagem é viva, social e que as tentativas de "fixação" transformava a língua em um sistema fechado, algo do foro apenas da memorabilia.


 A linguagem deve funcionar como diálogo constante, não apenas uma voz de autoridade. O conceito trabalhado por ele é de multiplicidade de vozes (heteroglossia),e os múltiplos significados de uma mesma palavra (polissemia. 


A música do título é uma tradicional portuguesa muito conhecida, mas eu mesma conheci com um samba enredo em homenagem ao português, da Escola de Samba Mangueira que era mais ou menos assim: 

"Vem no vira da Mangueira, vem sambar meu idioma tem o dom de transformar faz do Palácio do Samba uma casa portuguesa é uma casa portuguesa, com certeza". 

Mas meu ponto é que apesar da base portuguesa, nosso idioma é muito mais indígena, por esse carácter de nomeclaturas toponímicas e de nomes de comidas, fauna e flora que são intrisicamente tupi-guarani. 


O nosso país foi forjado em tradições diversas. De um jeito,  se criou algo novo, não reproduziu-se o antigo, como aconteceu na maior parte dos outros países de lingua lusofônica, que apesar das expressões locais, o português se manteve mais ou menos intacto. Aqui foi diferente. A língua mudou muito e há muitas diferenças regionais.  


Outra diferença é nos pronomes e nos estados, o sudeste fala "você" derivado do português arcaico "vossa mercê", o você é usado no Rio De Janeiro e São Paulo. Enquanto o sul (RS, SC) e o norte falam "Tu", em partes do Pará e Amazonas, como também em parte do nordeste. Podendo haver concordância ou não. 

Enquanto em portugal se fala "tu fizeste" "vós tendes", no Brasil se fala "você fez", "vocês têm". Essa forma de "gerúndio expandido" é presente no uso da expressão "estou fazendo" que se aproxima ao inglês americano simples moderno, a expressão correspondente seria ("I am doing), enquanto em Portugal se diz: "estou a fazer", pra dar um exemplo prático.


Você pode dizer de maneira informal, "tu vai", é mais raro ouvir "Tu vais", mas acontece também esse tratamento formal em alguns casos. Um exemplo disso é a música "Anunciação" de Alceu Valença, a musica fala: 

 

Tu vens, tu vens, eu já escuto o seu sinal. 




A história do povo Guarani: 


Houve perto da fronteira sul, um experimento histórico chamado "República Guarani" informalmente, eram os "povos das missões" com presença de padres jesuítas que registraram parte da gramática das linguas indígenas. 

A lingua guarani era parte integrante de toda a organização social. Em 1759, os jesuítas foram expulsos  por Marques de Pombal que também proibiu o uso do guarani como língua, e aos poucos o território Guarani das missões se desfez e aos poucos após também as guerraa guaraníticas, e  houve esse recuo até o Paraguai, país que mantém sua ligação pelo menos formalmente com o mito originário guarani. 


Mapa das reduções jesuíticas. 


Já no Brasil como um todo, até o século XVI, apenas duas capitanias prosperaram, São Vicente e Pernambuco (desbravando assim o território interno). Explicando a necessidade de expulsar outros colonizadores da região. 


Em primeiro momento houve a inserção do governo português no território, isso bem antes em, 1530 (com o governo geral), criando aqui o primlpuiro eixo econômico no Brasil, entre (atual nordeste e São Paulo). 

A primeira capital foi Salvador, depois mudou o eixo para o Rio de Janeiro como capital já na época que a família real portuguesa veio pro Brasil pra fugir de Napoleão. A vinda da família real transformou o país por definir o Brasil como a inesperada nova morada da flor do Lácio e seus principais herdeiros. 


Nessa época, diferente dos outros países que falavam espanhol, nossa independência manteve o regime monárquico, em sintonia com, Holanda, Bélgica e Inglaterra.  A independência do Brasil fez surgir um mito do protagonismo no sudeste, quando já havia a tentativa de separação pelos Estados desde a primeira Assembleia Constituinte (chamada de Constituição da Mandioca) e não aceita pelos estados. Outra questão era a proibição de universidades aqui por parte dos portugueses. Era uma monarquia muito opressora e nada amigável como é normalmente ensinado que era. 


Nessa época, algo aconteceu no Brasil que não ocorreu em nenhuma colônia. O Brasil foi alçado ao posto de Reino equipado com Portugal e Algarve, gerando um odio absurdo do povo português, de que a família real havia traído o país para viver nas colônias prósperas.


  

A equiparação dos reinos fez surgir o Reino de Portugal, Brasil e Algarve. 


Depois disso, a esposa de Dom Pedro I, a Leopoldina mandou uma missão francesa de cientistas que documentou o território, escreveu livros e pintou quadros sobre o Brasil.  A missão francesa resultou na criação no primeiro núcleo de estudos de história natural no Rio de Janeiro. 


Pintado por Antoine Taunay, a vista do Morro de Santo Antônio (1816).


Retrato do carnaval, por Debret (1823)


Agora, os franceses não eram mais expulsos, eram chamados para fazer ciência e cultura. Entre eles, o Nicolas-Antoine Taunay, o patriarca da família Taunay, algumas gerações depois, outro Taunay escreveu "Inocência", um importante marco no romance que inaugurou a literatura nacional e a densidade regionalista, com descrição de objetos, cantos e costumes tipicamente brasileiros. 


Nessa época surgia já o bravado de independência, se antes, a igreja católica mandou mulheres brancas para impedir o casamento de portugueses com mulheres indígenas, era pelo meno de uma mistura de povos gerar uma nação independente, era para evitar a construção de um novo país. 


Trazendo as primeiras mulheres brancas ao Brasil, sob condição quase que de escravas também. O interessante do filme Desmundos é que o diretor Alan Fresnot optou por não traduzir as partes do filme tanto em português arcaico, quanto a spartes em yoruba (dos escravizados), ou a parte em hebraico dos cristãos-novos. 

Um adendo válido é comentar sobre a tentativa da casa de Nassau de tomar o Recife. Pernambuco não ficou com muitas heranças dessa época, além de algumas lembrancas na arquitetura, modelo da cidade de Recife, além da impressão cultural forte na cultura popular. Impressões na obra de um João Cabral de Melo Neto e claro, ou na obra de um autor popular e cronista como Camarâ Cascudo. 

Dessas epopeias românticas iniciais que definiram o Brasil, vale ressaltar Caramuru e O Uruguay, e o romance e ópera O Guarani, que foi inspirado no caso do índio Arariboia, que ajudou a expulsar os franceses da baia de Guanabara e por isso "ganhou" as terras de Niterói (conhecidas antes como a banda oriental da baia). 

Vale lembrar que Montaigne em Ensaios, já mencionava índios brasileiros em seus escritos, já antecipando um viés de relativismo cultural no julgamento dos costumes. 

 A própria palavra do nosso da nossa cidade aqui remete ao tupi-guarani, significa "águas escondidas". A palavra "guri" por exemplo, muito usada no sul do Brasil, é de origem guarani. 


Vale lembrar que existem três tipos de troncos linguísticos do guarani, os Mbyá (ou Mbya) Kaiowá esses sendo tribos na região do Mato Grosso (ou Caiuá, Kaiowa, Paĩ-Kaiowá), Ñandeva (ou Nhandeva, Ava Guarani, Chiripá) na região entre o Brasil e o Paraguai.


Depois que os franceses foram derrotados, depous que os jesuítas foram expulsos, começou a haver disputa e conflito entre a América Espanhola, muitos países decidiram de separar da metrôpole e declarar independência. 

 Eram os principais líderes, José Martin e Simon Bolívar e do projeto da Gran Colombia. Ao contrário dos países vizinhos que se desmembraram falando espanhol, o Brasil manteve sua grande unidade territorial, o que era conflito antigamente, hoje em dia é uma das nossas maiores forças. 

O desespero da coroa portuguesa em manter os anéis (as riquezas) e as riquezas eram todas vindas do Brasil. Portugal não tinha muito dinheiro, sempre sendo explorada por vez primeiro pela Espanha, e depois economicamente pela Inglaterra. Por isso havia muitas revoltas contra a centralidade da monarquia já no Rio se Janeiro. Havia quem dizia que o nordeste trabalhava para manter o lixo da irrresponsável corte no Rio de Janeiro.


Já no século XIX, tivemos o nosso "Shakespeare", o grande Machado de Assis era autodidata e sabia várias línguas. Mas mesmo assim, não caiu na tentação do formalismo em voga. Foi um dos primeiros escritores a escrever usando a forma brasileira, apesar de poucos notarem isso.


 Como ele escrevia muito bem e traduzia, tinha talento para regionalizar e editar o idioma. A ironia? Ele fora muito bem casado com uma mulher portuguesa. Prova disso é a briga de Machado com Aluísio de Azevedo.  


Machado introduziu tantas expressões próprias do Rio de Janeiro e da sociabilidade da época, a Rua do Ouvidor, o Passeio Público. Expressões como “não digo que…”, "Ao vencedor, as batatas" : Máxima do Humanitismo (filosofia fajuta criada no livro de Quincas Borbas e citada em Memórias Póstumas), que resume bem a busca egoísta humana pela sobrevivência. 


Segundo Machado de Assis, a literatura europeia era "literatura de sogra". 


Já depois no século XIX veio o fenômeno das imigrações em massa. Feita para substituir a mão de obra escrava. Os japoneses (pelo viés cultural) e os italianos trouxeram diversas palavras também, o ciao virou tchau, macarrão. O chopp (vem de Schoppen) do alemão. 


Desses imigrantes, o que mais "viraram brasileiros" foram os italianos. Olha o caso do time de futebol, o Fluminense, é essencialmente um time dos imigrantes italianos e imigrantes em geral. 


Além disso, os espanhois vem como uma massa silenciosa muito presente, mas pouco comentada. O castelhano se diluiu em usos, palavras como bolicho (pequeno comércio) ou mesmo "gringo" tem essa origem. Existem muitos espanhóis no Brasil também. 


Outra palavra comum e de origem francesa é o abajur, vindo da palavra francesa abat-jour. Palavras como, Boate (boite), Cabine (cabine), Edredom (édredon), Foyer (foyer - saguão), Menu (menu - cardápio), todas de origsm francesa. O costume e a cultura introduzem essa inserção aos poucos. Psicologicamente, nem percebemos como o uso de objetos e nomes próprios e de lugares reproduzem um idioma novo. 

 Dos árabes, vieram mais comidas e bebidas, como esfirra, kibe, tabule (uma salada libanesa). Outra curiosidade é a palavra Oxalá (existe em espanhol) e significa: (se deus quiser no português/ e tomara no espanhol), essa palavra vem do árabe: Inshallah e foi muito incorporada, principalmente em seu sentido religioso no Brasil.

O tupi-Guarani, o tronco linguístico como um todo deixou impressões na cultura em diversa spalavras que usamos diariamente no português, como pipoca, mandioca, abacaxi, capivara, Ipanema, Paraná, Niterói, Itatiaia, todas tem essa origem. O brasileiro fala tupi-guarani todo dia e não percebe. 


 Outras palavras que conhecemos, Açaí: yasaí ("fruta que chora"/solta líquido). A fruta do guaraná: wara'ná, a Jabuticaba: iauoti'kaya  (jabuticabeira) também, e minha fruta favorita, o maracujá (mara-kuya) (significa alimento na cuia).  A Paçoca, (pa'soka). Também a nossa tapioca: tipi'oka (farinha de mandioca ralada), coisa que todo brasileiro come todo dia. 





Além disso, se pensarmos no tupi-guarani mais uma vez, vemos nomes comuns para nós como Capivara: kaa'pii'üara (comedor de capim), Caturrita: espécie de papagaio pequeno, Jacaré: îakaré (o que seria torto). O nome do animal mais elegante felino brasileiro, o Jaguar: îagûara (fera/onça pintada). O nosso Tatu: tatu (animal que se enrola na terra e perfura). 


A descrição de espaços como a Caatinga (no nordeste): Caatinga: ka'a (mata) + tinga (branca), o Capim: ka'api (grama/erva), o Cipó: sy'pó (planta trepadeira), o Mandacaru: mandakarú (árvore espinhosa, como o cacto), o Sapé: iasa'pe (palha, casa de palha). 


Já as palavras africanas que vieram com as pessoas foram escravizadas são entre o banto (proto) e o Iorubá. Palavras que usamos como, caçula, moleque, quitanda (pequeno mercado), fubá (farinha de milho), orixá (santo), xangô (prática religiosa local), a palavra axé antes de ser ritmo musical, era uma referência a uma palavra que significa algo como abençoar alguém, desejar boas novas.

 Quem nunca também arrumou uma quizumba? (palavra de origem angolana), quem sabe que o nosso requeijão é de origem alemã e do século XIX? Eram vendidos em tubos como os tubos de pasta de dente. E hoje em dia, aposto que nenhum alemão nem sabe o que isso é. 

Quem nunca falou tchau? Ou foi em uma praia de nome indígena. Isso é o Brasil, o país da polissemia e da mistura. Transformando o português brasileiro nessa lingua quase cantada e que se difere tanto de um Estado para o outro. Há tantos "brasis" que muitos cantos não conhecem os outros cantos. Tantas expressões regionais, o repente (o rap do sertão), a literatura de cordel, as diferenças de sotaques e formas de puxar letras mais que outras. 


Em Niterói, devido a imensa admiração ao nordeste que temos e cultura de sebos, universidades e livros, somos os "românticos de Niterói", como diria Antônio Cândido em "Literatura e Sociedade", isso significa talvez uma cultura bem menos anti intelectual que o Rio se Janeiro, por exemplo. 


 Nada seria errado, mas teria os padrões considerados "mais ocidentais" ou "urbanos", que seria a forma de falar português do Rio de Janeiro e São Paulo. Mas eu não concordo com isso, considero que quando o nordestino é letrado, ele é até melhor na fala e pronúncia. 


É uma questão de região e preconceito também. Também não é bonita a puxada dos "s" e "r" da cultura de praia carioca, mas é tradicional e conhecida, parte das "girias" locais. Enfim, lingua é uso e viva, as variações vão compor o todo nacional, isso sem preconceito linguístico. 


Mas há alguma unicidade conquistada através de fenômenos políticos e culturais. No sudeste, há preconceito contra o nordestino e é bem forte, mas ao mesmo tempo, é do nordeste(e norte) a maior parte da cultura consumida sobre o "ideal nacional", além de ser o berço também da cultura popular e da representação nacional.

 

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